segunda-feira, 10 de julho de 2017

Um Menino Que faz Teologia na Periferia

(Foto Ilustrativa) 


Por Marcos Aurélio dos Santos 

“Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus”. (Mc.10:14).

“E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará” (Isaías 11:6).           

Entre as crianças pobres da periferia há uma diversidade de talentos. Meninos e meninas, adolescentes em potencial. Não a partir de uma ideologia da meritocracia que valoriza o individualismo, mas na própria vida comunitária em que vivem, onde se aprende com a dura experiência da vida das comunidades empobrecidas. Nossos meninos e meninas pensam, interagem em sala de aula, são criativos, alegres, compartilham, gostam de brincar, ouvir e contar histórias, falam com entusiasmo sobre de suas experiências de vida, tudo isso em meio aos desafios de morar em uma região periférica. Confesso que para nós é uma experiência de aprendizado mútuo. Os professores também são alunos. A sala de aula é a vida.

Dentre os meninos e meninas cheios de amor e vocações conheci o Thalison, um menino negro que nos ensina a fazer teologia. Apesar de nem saber bem o significado de ser teólogo ele o é. Thalison não é um teólogo profissional, de faculdade, de escrivaninha, das leituras e pesquisas, não é teórico, até porque não tem idade para ser. Ele é o nosso amado teólogo popular. Ele a faz a partir da realidade onde ele vive. Onde estuda em uma escola pública, onde mora, brinca, caminha pelas ruas enlameadas, vai ao mercadinho, à mercearia ou quando sobra algum trocado compra um dimdim na casa do vizinho.

Nosso teólogo popular fala de maneira espontânea sobre amor e justiça. Diz que na comunidade há carência de segurança, saúde, saneamento e outros problemas. Para ele, essa não é a vontade do Deus da justiça para os moradores de Jardim progresso e que as pessoas devem ter direito a essas coisas. Órfão de pai e mãe,Thalison é um menino cheio de esperança, de sonhos, virtudes que faltam muitas das vezes nos teólogos profissionais sistemáticos que lamentavelmente se detém apenas nas teorias repetitivas. Nosso “Teólogo mirim” Entende que devemos ser obedientes a Deus e fazer a sua vontade. Certa vez perguntei para ele: Thalison, para você, quem é Deus? Ele respondeu: Para mim, Deus é Compaixão, amor e misericórdia. Fiz também outra pergunta ao nosso teólogo da periferia: O que Deus quer de nós como cristãos? De uma forma simples ele respondeu: Obedecer a Ele e servir às pessoas.

Em minha caminhada com Thalison a quase três anos, tenho aprendido a diferença entre fazer teologia e construir reproduções descontextualizadas de pensadores a partir de uma mesa e um teclado de notebook. Aprendi com o pequeno teólogo popular no caminho, compartilhando com ele em sua própria experiência de vida, no seu jeito simples de menino as vezes desobediente, em sua sinceridade de criança sem malicia e sem grandes ambições de poder, em seus momentos de tristeza causados pelas dores da vida. Aprendi que para fazer teologia contextual-latino-americana se faz necessário estar entre o povo e com o povo, interagindo em ações concretas de libertação. É impossível fazê-la isolado da realidade da vida, da história, do contexto onde estamos. É preciso pé no chão.

Tentar retirar Deus da história, da vida, dos pobres e depois escrever não é fazer teologia. Levar Deus para uma esfera distante da realidade e sofrimento como também da alegria das pessoas é alienação. Para fazer teologia no caminho devemos trazer a criança pobre e negra da periferia para o centro de nossa reflexão, e, isso deve começar a partir do lugar onde estamos, lá deve ser a fonte de construção do fazer teológico. É na experiência prática que iremos até o texto bíblico onde encontramos a base para uma teologia popular, a saber, o Evangelho de Jesus de Nazaré, que deve ser o eixo de toda teologia.    
   



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