domingo, 5 de março de 2017

A Missão Comunitária de Jesus e o lugar de Denúncia

Por Marcos Aurélio dos Santos 

Uma pergunta fundamental que devemos fazer a nós mesmos quanto a missão comunitária é o lugar onde estamos, de onde estamos falando e agindo, pois, a missão não consiste apenas em palavras. Muitos tem falado a partir de vários lugares. Do escritório pastoral, da escrivaninha por meio de textos, dos púlpitos, dos grandes congressos, outros por meio da mídia. Os lugares são diversos. Contudo é preciso refletir sobre o lugar onde Jesus viveu, pregou a agiu. Os Evangelhos deixam claro que de modo algum foi nos lugares altos, entre os poderosos, nem distante do povo, mas em sua maior parte entre os pobres, aliás, Ele foi ungido para esse fim (Lc. 4.18).

Entre o povo e com o povo, sua fala e ação foi radical, assim como a dos profetas. Não partiu para um confronto direto com Roma, entretanto no mínimo causou um incômodo necessário quando entra em Jerusalém como Rei e bagunça as pretensões maléficas dos religiosos no templo que era policiada por soldados romanos. Foi um problema para a elite de seu tempo. Fariseus, doutores da lei, comerciantes ricos e o sumo Sacerdote, a autoridade maior na hierarquia do poder político-religioso. Sua denúncia ao movimento de exploração e opressão no templo teve uma dimensão abrangente e profunda, não se limitava ao evento anual no templo, não era uma denúncia a profanação do “santo templo. ” Sua reação radical estava fundada no amor às pessoas. Jesus queria a libertação de seu povo do sistema de opressão econômico-político-religioso de seu tempo (Lc. 19.45).

A fala de Jesus não parte das tribunas do poder, nem do palácio, nem do templo, Ele anuncia as boas novas do reino de justiça a partir do lugar onde ele pisou e caminhou. Jesus falou a partir dos pobres, na periferia de Jerusalém, a Galileia. Aliás, como pobre que viveu na humilde comunidade de Nazaré, não havia lugar mais apropriado para iniciar a missão que o Pai lhe entregou. O brado de justiça de Jesus não ecoou no ar e perdeu-se. Ele tinha uma direção e um alvo. Este alvo era a estrutura de poder opressor que se encontrava nas partes altas. Sua denúncia parte de baixo para cima, a partir da periferia. Isto ele fez com liberdade. Jesus era livre. 

Tomando forma de servo sofredor e humilde (Fp. 2.7), não cogitou as cadeiras do poder, não negociou com os poderosos, não devia nada a ninguém, não comungou, não se vendeu ao sistema. Jesus falou e agiu como um sujeito livre, não se submeteu ao sistema opressor, ao contrário, o denunciou. Sua indignação com a injustiça aos pobres não partia de um estudo teórico ou de uma filosofia, a fazia a partir de sua missão entre os pobres. Em sua caminhada com o povo viu na face e em seus olhares o sofrimento e a angustia, não apenas observou ou demonstrou um sentimento de sensibilidade, mas moveu-se em amor, com ações de misericórdia para com eles.

O lugar de ponto de partida da missão de Jesus deve ser o exemplo prático para a missão comunitária de nossos dias. Por esta razão devemos nos perguntar: Onde estão os nossos pés? Por onde estamos caminhando? Quantas pessoas estamos olhando face a face e agindo diante do sofrimento e dor? De que lado estamos, do opressor ou do oprimido? Certamente só teremos estas respostas em ação de amor e com liberdade ao encontro do pobre.  
      



      
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