sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A Desigualdade e o Silêncio da Igreja Evangélica Brasileira

Por Marcos Aurélio dos Santos 

Em uma das visitas que fiz na comunidade de Jardim Progresso, na região periférica, conheci a família de Rafael, aluno do espaço comunitário pé no chão. Sua mãe atenciosamente nos recebeu em sua casa. Lugar simples. Ao chegar, logo percebi que a família de Rafael vivia uma vida difícil, faltando-lhes o mínimo direito à dignidade humana. Na ocasião, fiz a matrícula de mais dois dos seus irmãos que no total são cinco. Crianças de um a oito anos. Um detalhe que me deixou perplexo. Aquela família estava sobrevivendo apenas com a ajuda do Governo Federal. O Bolsa Família. Fiquei chocado. Comecei a perceber que as assistências feitas por igrejas e ONG’S de maneira minúscula, jamais irão dar uma resposta concreta a realidade da família de Rafael e de tantas outras que vivem na periferia de Jardim progresso. Percebi que era uma questão de injustiça social.  

Em um estudo recente sobre o imposto de renda com base nos declarantes no Brasil entre 2007 e 2013 elaborado por Evilásio Salvador, revela o novo mapa da desigualdade no Brasil. Um ponto relevante na pesquisa mostra a absurda distancias entre as duas realidades.

Vejamos:

“O Brasil tem um dos mais injustos sistemas tributários do mundo e uma das mais altas desigualdades socioeconômicas entre todos os países. Além disso, os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os mais pobres, criando uma das maiores concentrações de renda e patrimônio do planeta. Essa relação direta entre tributação injusta e desigualdade e concentração de renda e patrimônio é investigada no estudo Perfil da Desigualdade e da Injustiça Tributária, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) com apoio da Oxfam Brasil, Christian Aid e Pão Para o Mundo. Tive o privilégio de conduzir a pesquisa e redigir sua versão final”. (Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/563457-o-novo-mapa-da-desigualdade-brasileira).

A Receita Federal também revela o aumento da desigualdade no Brasil.

"Os dados da Receita Federal analisados para o estudo revelam uma casta de privilegiados no país, com elevados rendimentos e riquezas que não são tributados adequadamente e, muitas vezes, sequer sofrem qualquer incidência de Imposto de Renda (IR). Por exemplo: do total de R$ 5,8 trilhões de patrimônio informados ao Fisco em 2013 (não se considera aqui a sonegação), 41,56% pertenciam a apenas 726.725 pessoas, com rendimentos acima de 40 salários mínimos. Isto é, 0,36% da população brasileira detém um patrimônio equivalente a 45,54% do total. Considera-se, ainda, que essa concentração de renda e patrimônio está praticamente em cinco estados da federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, agravando ainda mais as desigualdades regionais do país".

Estes dados nos dão a resposta do porque a família de Rafael como também de muitas outras no Brasil vivem em um estado de pobreza extrema. Uma política tributária injusta que favorece os mais ricos, uma tributação que oprime o pobre esmagando qualquer esperança de mudanças positivas quanto à sua qualidade de vida. É um processo crescente que aumenta a concentração de riqueza dos afortunados em detrimento dos mais pobres. Uma injustiça gritante em tempos de crise econômica.
Essa questão diz respeito a nós, igreja. Contudo a mesma permanece em absoluto silêncio diante das injustiças aos mais pobres. Não se move nem fala. A Igreja está paralisada muda, e isto é grave. Calar-se diante das injustiças nos faz cúmplices do sistema de opressão. Permanecer em silêncio ante a fome e a miséria dos sem voz, colabora com o pecado dos opressores e usurpadores do direito humano. A Igreja está em pecado. Aliás, tornou-se amiga íntima do neoliberalismo pois não resistiu aos desejos nefastos do capitalismo, e esta é uma das fortes razões da igreja não se posicionar diante de um cenário de desigualdade extrema. A Igreja necessita de arrependimento.  

Se faz necessário e urgente uma releitura e compressão clara por parte da igreja sobre a profecia hoje. O resgate da voz profética da igreja e uma ação que se movimente ao encontro dos que sofrem certamente trará respostas concretas para a realidade da desigualdade social em nosso tempo presente. 
Dar voz aos que não tem voz e uma ação profética que comece de baixo para cima é o grande desafio da igreja evangélica brasileira no comprimento da profecia. Essa voz profética não pode ser confundida com uma previsão futura ou ensino doutrinário na igreja, mas como a voz de Deus por meio da igreja contra todo tipo de injustiça no mundo.   

Alguns movimentos em determinadas igrejas têm depositado sua esperança em candidatos evangélicos que segundo estes, como representantes de Deus farão diferença. Mas lamentavelmente a história da bancada evangélica brasileira é vergonhosa. É um desserviço ao evangelho, sem falar que esperar transformação de realidades sociais via candidatura política é impensável no contexto de igreja de Deus. Não há outro caminho a trilhar se não o da profecia, ainda que seja um caminho árduo e longo, sempre será o caminho de Deus. Os caminhos do sistema políticos-partidários como investidas em candidatos evangélicos não é o caminho da justiça que propõe o Jesus de Nazaré em seu evangelho.  

Então, a igreja deve rever o conceito de profecia e por meio da voz e ação nas partes baixas denunciar as injustiças. Deve seguir o exemplo do profeta João Batista que, com suas vestes de pele de camelo, com comida e vida simples denuncia a usurpação do poder da elite em Jerusalém, contra os acordos maléficos entres o falso sumo sacerdote Caifás e o poder opressor de Roma.
Deus ama a sua igreja.  
  
    
     


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