sábado, 15 de outubro de 2016

Missão Integral: É Hora da Autocrítica

Por Marcos Aurélio dos Santos

A missão integral sem sombra de dúvidas é um movimento que tem desafiado a igreja evangélica a repensar sua identidade e missão nas últimas décadas no contexto evangélico da América Latina. Devemos reconhecer que ela quebrou alguns dos velhos paradigmas que por sua vez tem apontado alguns caminhos relevantes para a missão da igreja. Um movimento que desafia a igreja a rever seus conceitos sobre justiça, missão, espiritualidade e liderança. Deus seja louvado por isso. 

Contudo é hora de repensar, sair das reflexões, emoções, discursos e avançar. Basta de romantismo. A missão integral necessita urgentemente de uma autocrítica, principalmente sobre as implicações de sua práxis. Devemos reconhecer que neste aspecto temos caminhado a passos lentos e com propostas com traços de assistencialismo. Nos faltam propostas concretas de transformação. O máximo que conseguimos fazer com muito esforço é um aprimoramento do assistencialismo histórico que tem marcado a ação social da igreja. Para muitos que se dizem fazer missão integral, mesmo sem saber bem o que é, evangelismo e ação social tem um significado de missão em sua integralidade. Uma visão dicotômica e reducionista herdada das teologias tradicionais.  

As dicotomias, reducionismos e uma forte ênfase na apologética estão impedindo que a igreja avance com uma prática mais sustentável e propostas concretas de transformação do mundo pelo poder do Evangelho. Temas como política, economia, ecumenismo, raça, homofobia, terra, fome, imigração e outros assuntos atuais que dizem respeito às injustiças no mundo ainda não estão em pauta e muito menos na prática da grande parte dos movimentos nas igrejas locais que trabalham com MI. 

O teólogo espanhol Juan José Tamayo, no Ultimo CLADE V ( Congresso Latino-Americano de Evangelização) ocorrido em San José, Costa Rica, de 9 a 13 de Julho de 2012 falou sobre os dez desafios da Missão Integral no futuro. 

Vejamos: 


1) Responder à pobreza estrutural e aos movimentos de luta contra a pobreza. Desse desafio surgirá uma igreja solidária, uma igreja da libertação integral, uma igreja dos pobres.


2) Responder à globalização neoliberal excludente e à altergloblalização inclusiva. A alterglobalização é um movimento que se opõe aos efeitos negativos da globalização econômica. Desse desafio surge uma igreja contra-hegemônica, um igreja contraimperial.

3) Responder ao patriarcado e ao feminismo, como alternativa. Segundo ele, a igreja ainda é patriarcal na organização, na doutrina, na moral e na linguagem. Logo, o feminismo aparece como uma filosofia de igualdade e um movimento social de libertação das mulheres. Desse desafio surgirá uma igreja comunitária e fraterna, onde a mulher também seja sujeito.

4) Responder à destruição do meio ambiente e à consciência ecológica. Desse desafio surgirá uma igreja que não seja uma organização antropocêntrica, mas uma comunidade ecológica, comunidade que defenda os direitos da natureza.

5) Responder ao neocolonialismo e à descolonização das igrejas. Desse desafio surgirá uma igreja autóctone, uma igreja latino-americana.

6) Responder à uniformidade cultural e à interculturalidade. Desse desafio surgirá uma igreja universal, uma igreja intercultural.

7) Responder ao fundamentalismo, instalado nas cúpulas, e ao diálogo inter-religioso e social. Desse desafio surgirá uma igreja em diálogo ecumênico, inter-religioso e social.

8) Responder ao dogmatismo e à afirmação da ética. O dogma não pode sobrepor-se ao Evangelho e as "verdades eternas" não podem se sobrepor à ética. Desse desafio surgirá uma igreja que recupere os símbolos, porque, como diz Paul Ricoeur, o símbolo dá que pensar; uma igreja que recupere a ética como teologia primeira, assim como Emmanuel Lévinas afirmava a ética como filosofia primeira.

9) Responder à uniformidade e fragmentação, e ao pluralismo eclesiástico. Desse desafio surgirá um igreja plural, sem fragmentação, sem exclusão, sem excomunhão, sem inquisidores e sem hereges.

10) Responder às investigações científicas e à condenação da ciência. Desse desafio surgirá uma igreja em diálogo com a ciência e uma igreja que critique os abusos da ciência. (Resumo feito por Luiz Felipe Xavier em 02/08/2012).

Estas observações feitas por Juan José foram discutidas a quatro anos atrás. São desafios que chamam a igreja para uma prática da missão integral que tenha como objetivo concreto, traspor o assistencialismo histórico e levar a igreja na América Latina a um envolvimento com questões atuais de nosso tempo em dimensões mais profundas de amor e justiça. Uma resposta aos diversos problemas que afligem a humanidade. Para que a igreja cumpra sua missão de sal da terra e luz do mundo, faz-se necessário e urgente atentar para esses desafios. Menos teologia e mais prática.      

Um fato merece nossa atenção e bom senso. Ainda somos profundamente influenciados pelas teologias importadas do Norte e da Europa, ainda que muitos não concordem com essa afirmação. Não estamos construindo uma teologia a partir do contexto, da caminhada com o pobre em comunidade, ouvindo a pessoas e construindo parcerias de amor com as mesmas. Em vez disso, estamos começando pelas grandes estruturas, nas grandes lideranças eclesiais via clero. A via está errada. Estamos levando pacotes prontos de assistências às pessoas sem ao menos perguntar se elas de fato querem tal ajuda. Há necessidade de libertação e diálogo aberto com outros seguimentos que começaram a luta pela manifestação da justiça de Deus no mundo antes de nós. Achamos que somos o dono do pedaço.  

A fragmentação na MI também tem contribuído para o entrave. Por falta de leitura responsável, pesquisa e conhecimento da história, muitos tem feito confusão quanto a definição do termo. Cada um quer a “sua missão integral”. Um campo de batalha está formado. Estamos mais preocupados em defender nosso ponto de vista em detrimento do serviço de amor. Precisamos aprender com quem está fazendo mais e melhor do que nós. Essa verdade não é uma teoria mais um fato notório. É urgente avançar. É preciso construir novos diálogos ecumênicos, quebrar preconceitos e se unir em amor fraterno. O isolamento religioso é um mal que nos acompanha a séculos. Reino dividido não caminha junto, não ama e não faz.

A ignorância leva aos piores extremos e falta de base na argumentação. Em meio à confusão de definições criaram-se sinônimos equivocados para a MI. Comunismo, versão evangélica da teologia da libertação, doutrina do demônio, junção entre espiritual-material, evangelismo e ação social e outros. Infelizmente somos leitores de orelhas de livros. A MI está se tornando um campo de luta espiritual e ringue de disputas apologéticas. Uma grande perda para a igreja pois a própria história da igreja cristã em seus concílios criados para exterminar os hereges demonstra o prejuízo. Perde-se tempo em defender as teses enquanto o mal avança no mundo. Estamos muito preocupados em teologizar para defender a “nossa MI preferida” em detrimento da luta pela justiça do Reino.  

Ainda que em alguns poucos seguimentos ou grupos se dispuseram a uma abertura de diálogo, estamos muito isolados. Não temos disposição nem iniciativa para um diálogo ecumênico (questão bastante abordada de forma clara nos escritos dos precursores da MI). Estamos escravos do preconceito e do individualismo. Novamente estamos carentes de libertação. É preciso dialogar com quem está fazendo melhor. A TdL, movimentos sociais e outros movimentos que buscam a justiça tem muito a nos dizer, principalmente sobre a prática. Nos falta bom senso e humildade. É preciso discutir sobre tudo que diz respeito ao mundo pois tudo diz respeito ao evangelho, o que afeta o homem e o que ao homem afeta. Podemos dizer aqui, que nenhum de nós pode dizer que faz missão integral em sua verdadeira integra. Ainda há muita parcialidade, pois, o termo integral implica em uma abrangência profunda e desafiadora para nós.

O sério perigo que permeia sobre a MI, é tornar-se mais uma teologia sistematizada de curso teológico em seminários para atender as demandas do sistema religioso-evangélico já implantado, ou uma teologia de crescimento de igreja. Poderá ficar apenas no campo da reflexão teológica se não fazer uma autocrítica, buscando a quebra de velhos paradigmas que tem travado a missão da igreja no mundo. Devemos também tomar a iniciativa de reconhecer nossas limitações e aprender com outros seguimentos fora dos arraiais evangélicos tradicionais. Ir ao encontro do pobre e fazer teologia a partir da realidade de injustiça que os cerca. É preciso contextualização e encarnação de fato e de verdade e não apenas teoria. É relevante desligar o notebook, descer dos púlpitos, fechar a porta do escritório, sair de traz da escrivaninha e colocar o pé na poeira, ocupar as ruas, becos, favelas e amar. É tempo de repensar a MI, de fazer autocrítica, de quebrar paradigmas. É tempo de amar, pois amar é fazer.  



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