sábado, 10 de setembro de 2016

O Amor em ação



Por Marcos Aurélio dos Santos

Muito se tem falado sobre o amor em nossas igrejas. Nosso texto preferido na leitura bíblica é 1 Coríntios 13, onde Paulo escrevendo aos corintianos fala sobre sua excelência. O amor é falado também nas frases de nossas orações, nos cultos, nos círculos de oração, na pregação de domingo, na escola bíblica e em diversas frases das músicas cantadas. De forma exaustiva falamos muito sobre o amor. Também em rodas de conversa entre irmãos, no evangelismo quando dizemos para alguém, Jesus te ama ou para o nosso irmão, eu te amo.

Lembro-me dos tempos de evangelização em uma comunidade pobre do interior em que nos estudos bíblicos o meu pastor dizia a seguinte frase: “Tudo que fizermos na obra de Deus façamos com amor”. Em termos práticos o ensino era que o amor deveria ser o arbitro em todas as ações da igreja naquela localidade. A pregação, o estudo, a evangelização, o serviço, a contribuição financeira, a oração, a direção do culto. Toadas as práticas em sua maioria internas da igreja deveriam ser baseadas no amor. Bons tempos.  Alguns aprenderam a lição, outros não.

O amor jamais pode ser teórico ou mesmo um romantismo, ele deve ser encarnado. Amar é fazer. O amor cristão não consiste em palavras, sentimentos ou doutrina, mas em atos de compaixão na prática. Não se pode escrever um livro ou elaborar um curso sobre uma teoria cujo o tema seria: “dez passos para amar”. Seria no mínimo patético pois o amor não está condicionado a uma sistematização teórica, a dogmas ou doutrinas com regras estabelecidas. Amar é simplesmente demonstrar na vida o Jesus de Nazaré, fazendo pelo outro em renúncia a si mesmo. O amor deve estar nas entranhas do discípulo e certamente não será encontrado nos livros de teologia.

Devemos amar verdadeiramente e não somente com belas palavras para impressionar. Podemos usar nossas técnicas de retórica para proferir palavras bonitas sobre o amor, elaborar belos sermões e agradar a membresia, contudo se esse amor não se concretizar na vida, na prática em serviço ao próximo, todo discurso é vão. Será como lançar palavras ao ar, desperdiçadas, sem nenhum proveito para uma ação concreta de libertação.

A igreja precisa aprender a amar. Muito tem se falado sobre o cuidado com os pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros, mas na prática isto não está acontecendo. Deve haver uma libertação do egoísmo para que o amor encontre lugar para agir. A igreja se tornou capitalista e para ela a prioridade é o consumo dos produtos oferecidos nas prateleiras da religião. O bem-estar próprio motivado pelo consumo é a urgência de uma igreja egoísta.

Pode-se investir em reforma do templo, estacionamento amplo, ar condicionado, novas poltronas, serviço de som de última geração, vitrines, e outros supérfluos de consumo em nome do deus mercado influenciado pelo neoliberalismo. Isso tudo em detrimento do sofrimento dos pobres e marginalizados, dos famintos, dos sem lugar para morar, das crianças em situação de risco. Um ambiente onde o amor está apenas nas palavras e predomina o individualismo, este não é digno de Jesus de Nazaré.

Outro problema na igreja é que não se pode amar apenas os do nosso grupo. Deus amou o mundo e chama a sua igreja para amar também. Este isolamento dos chamados “incrédulos” reflete o quanto este amor tem máscaras e não condiz com o amor verdadeiro de Deus. Nos separamos do mundo no qual Cristo morreu por ele. No mínimo contraditório. Por esta razão a igreja está distante da realidade das periferias, onde estão os mais pobres. De fato, algumas delas estão presentes nas comunidades periféricas e rurais, mas ao mesmo tempo não, ao passo que as igrejas (pessoas) não estão indo ao encontro dos que sofrem. O amar (se de fato há), limitou-se a esfera eclesiástica sem alcançar a dimensão da missão da igreja no mundo. A igreja hoje procura amar os que se identificam com suas ideias e práticas religiosas, os da sua classe social, deixando de lado os diferentes.

Jesus amou o mundo e deu sua vida por ele. Ele amou fazendo. A vida de Jesus não foi marcada por belos sermões ou boa frequência na sinagoga, sua vida foi de serviço ao outro, em especial aos mais pobres da Galileia. Dos que ele se aproximou, em sua maioria eram excluídos e marginalizados. Denunciou a injustiça, anunciou as boas novas e acolheu os esquecidos. Para Jesus, amar deveria ir além das palavras, o amor deveria se manifestar em prática. Por esta razão a justiça de Jesus excedia a dos fariseus que havia contradição entre o discurso e o fazer.

A vida de Jesus teve como marca o amar sem mascaras. Amou até os inimigos. Não amou falsamente para se promover, simplesmente amou por amor ao outro. Sua intenção era a promoção dos miseráveis e não de si mesmo. Como é bom aprender com a vida Jesus. Aí permeia o perigo da ausência do amor. Podemos fazer algo pelo outro para autopromoção, para manter os pobres dependentes de nós, para torná-los mais miseráveis do que são.

Infelizmente a igreja em sua história aprendeu a ser assistencialista onde dificilmente percebe-se o amar. Por décadas a igreja evangélica se prestou a dar esmolas ou as sobras para os pobres para se promover a suas custas. Nunca se deu conta do absurdo. Dá a sopa, o pão e a cesta básica mas faz questão que a outra mão veja, ou seja, precisa ser noticiado para demostrar espiritualidade. Neste caso, percebe-se que é possível fazer sem amar privando os mais pobres de encontrar dignidade e respeito.

Mas como a igreja vencerá o egoísmo? Uma coisa somente podemos fazer. Arrepender-se para encarnar o amor. Libertação! Livrar-se do eu, do individualismo predominante e voltar a ser comunitária. Olhar para o pobre como Jesus olhou e amar em ação. O amor precede o fazer, por isso não devemos mover um dedo para servir ao outro se não for por amor. Olhar nos olhos do pobre e perceber o seu sofrimento, os olhos dizem muito. Assumir um compromisso com as pessoas que Deus nos confiou, aprender a caminhar com pessoas diferentes de nós.  

Amar é fazer, amar é doar-se sem esperar retribuição . 
      

  
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