sexta-feira, 11 de março de 2016

A Vocação Profética da Igreja



Por Marcos Aurélio dos Santos 

A história do povo de Deus sem dúvida foi marcada pela profecia. Deus sempre levantou profetas para serem a voz da justiça em um mundo marcado pelo domínio e opressão dos poderosos. Os profetas hebraicos foram vocacionados por Deus para serem proclamadores da justiça divina. Com uma postura radical e imbuídos de convicção combateram os atos de injustiça praticados por reis, sacerdotes e juízes de sua época. Neste contexto, os profetas se envolveram em questões políticas, econômicas, religiosas e sociais.  


Dentre eles podemos citar alguns dos profetas. Isaías que denunciou a falta de administração da justiça, o luxo e a riqueza dos poderosos (Is.10. 1-2; 3.18-24); Jeremias que protestou contra a fraude, acúmulo de riquezas e escravidão (Jr.5.27-28; 34.8-11), Isaías também se levantou com voz profética contra o latifúndio e o roubo (Is. 3.14-15; 5.8-10); Amós conta tributos e impostos injustos (Am.2,8; 5.11) e Ezequiel que denuncia a ganância e a agiotagem (Ez.18.16-17).


Estas são algumas das centenas de referências bíblicas que nos dão uma base segura para afirmar que a profecia ou a voz profética contra a injustiça no mundo hebreu estava profundamente presente no ministério dos profetas hebraicos. Na Bíblia há mais de três mil passagens que falam sobre pobreza e justiça. Muitas destas passagens são uma alusão não somente ao ministério dos profetas, mas a postura dos patriarcas, reis, governantes com no caso de Neemias que lutou por um governo a favor do povo, e no ministério de Jesus e dos apóstolos com a chegada do Reino de Deus. Percebe-se de forma clara que ecoa uma voz profética na história do povo de Deus do Antigo ao Novo Testamento.   


O conceito de justiça não foi uma ideia construída a partir de uma reflexão humana. Não foram os homens arrazoando entre si numa busca de uma definição do que é justiça que a encontraram. A Justiça emana do próprio Deus que é erradicada pelos patriarcas, profetas e tem sua encarnação em Jesus de Nazaré, o servo sofredor, o pregador da profecia e da Justiça do Reino. Toda reflexão e ação da justiça no mundo tem sua origem no Deus justo, que aborrece toda injustiça que oprime os mais fracos e sem voz.


O ministério de Jesus tem seu início com a profecia. A evangelização a partir da periferia de Jerusalém, a Galileia, revela o caráter da missão de Jesus entre os pobres e oprimidos. A libertação dos cativos, a cura dos enfermos, a recuperação da vista aos cegos, o acolhimento das crianças pobres em situação de risco, o livramento do sistema religioso, demonstram a encarnação da profecia que surge de baixo para cima, em denuncia as estruturas de poder e opressão da elite judaica que estavam em Jerusalém. Jesus não somente proclamou a justiça, mas encarnou-a em sua vida e ministério.     


A profecia percorre toda a história e não tem seu fim nos profetas hebraicos. Com a chegada do Reino de Deus a justiça passeia pela história até os confins do mundo. Portanto, Deus continua levantando profetas em seguimentos diversos, e manifestações de justiça marcam a história da humanidade. Parafraseando o profeta Amós, “Que essa justiça possa correr por vários lugares, por toda a terra e em todos os tempos, como um rio que nunca seca”.


Esta profecia está se cumprindo.


Se dermos um salto na história para a idade moderna, certamente encontramos profetas da justiça. Como no caso de Karl Marx que denunciou a opressão inglesa na época da revolução industrial, Gandhi que lutou pela liberdade da Índia e combateu a opressão do governo Britânico, Mandela que lutou em oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros (maioria da população), mestiços e indianos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos, Martin Luther King que lutou pelas liberdades civis dos negros nos Estados Unidos, Dom Elder Câmara que reivindicou o direito à moradia aos favelados e lutou contra a ditadura militar na década de 70 no Brasil. Há vários outros que poderíamos citar. A profecia a partir da perspectiva da história dos hebreus e do reino de Deus é manifesta no mundo. A profecia não para enquanto houver esperança.  


Mas aonde está a profecia na Igreja evangélica hoje? Por onde anda a sua vocação profética? Certamente a igreja se esqueceu ou perdeu o espírito profético. A profecia foi substituída por algo prognostico. Para a igreja de hoje, profecia é sinônimo de previsão futura, em uma busca da satisfação pessoal e por muitas vezes motivados por interesses egoístas. Perdeu-se a noção de justiça e os valores do Reino de Deus caíram no mar do esquecimento. Esta alienação é uma questão séria porque a igreja em seu chamado deve estar profundamente comprometida com a profecia. Não a das previsões incertas feitas por videntes, mas com a justiça do Reino imbuída de fé e esperança. Uma profecia que luta pela causa do pobre, dos fracos e oprimidos. É um resgate da profecia bíblica com base nos profetas hebraicos e em Jesus de Nazaré.


O compromisso da igreja com a profecia abrange uma grande dimensão. Ela deve falar e agir em favor dos pobres e dos oprimidos. Dos índios que vivem em situação de risco, dos favelados em seus barracos, dos sem teto que vivem os riscos das noites chuvosas e frias, dos órfãos em sua solidão, das viúvas sem amparo, dos estrangeiros no meio de estranhos, dos que vivem em constante perigo de morte como as prostitutas e homossexuais, dos trabalhadores explorados, dos desempregados sem salário, todos estes e muitos outros dizem respeito a profecia e a igreja.


A recuperação da profecia é uma questão de urgência. Uma igreja sem profecia é uma igreja que aos poucos vai perdendo seu vigor, e, se persistir em desobediência, certamente morrerá. Precisamos ouvir a voz do que clama no deserto, e, em obediência ao Deus da justiça, responder ao seu chamado. A igreja deve urgentemente entrar na história da humanidade, ouvir e ser participante de suas angústias e dores, deve bradar em alta voz contra todo tipo de injustiça, pois esta se manifesta em todo lugar e em todo o tempo.


Senhor Jesus, que venha o teu Reino, que a profecia seja resgatada e perpetue até a tua vinda! Amém!

  












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