sábado, 30 de maio de 2015

O Grito dos Excluídos: Jesus e o Cego de Jericó

Marcos Aurélio dos Santos

E depois, foram para Jericó. E, saindo ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava assentado junto do caminho, mendigando. E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim. E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava cada vez mais: Filho de Davi! tem misericórdia de mim. E Jesus, parando, disse que o chamassem; e chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, que ele te chama. E ele, lançando de si a sua capa, levantou-se, e foi ter com Jesus. E Jesus, falando, disse-lhe: Que queres que te faça? E o cego lhe disse: Mestre, que eu tenha vista. E Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E logo viu, e seguiu a Jesus pelo caminho”. (Mc.10.46-52). 

Este relato bíblico é um dos mais notáveis acontecimentos na história da humanidade. Um cego pobre, que vivia miseravelmente tem um encontro que mudaria sua vida de maneira radical. Um encontro que promoveu não somente uma mudança espiritual a partir de um milagre, mas algo que  trouxe transformações mais abrangentes. Implicações nas dimensões social, política e econômica. Um resgate de sua dignidade como ser humano em sua integralidade.

Bartimeu, filho de Timeu, como é chamado nos escritos da Bíblia, era um cego que pedia esmolas na saída da cidade de Jericó, uma pequena cidade da Palestina que ficava situada a aproximadamente dez quilômetros do rio Jordão. Nesta mesma cidade Zaqueu, o publicano, também teve um encontro com Jesus.

Jesus inicia seu ministério em um contexto de injustiça e opressão, estas cometidas pelos ricos e poderosos situados na cidade de Jerusalém, centro dos poderes econômico, político, social, religioso e do saber. Foi neste contexto de desigualdade que o cego de Jericó teve um encontro com aquele veio para denunciar o opressor e acolher o oprimido.   

Podemos pensar sobre algumas questões que envolviam a vida daquele homem. Bartimeu não era apenas cego, mas um indivíduo pobre, que dependia das esmolas dos que passavam pela estrada empoeirada na entrada da cidade. Possivelmente passava a maior parte de seu tempo em um mesmo lugar, não tinha muita opção de caminhar pela cidade pois era cego, talvez alguém o guiasse, não sabemos ao certo. 

Vivendo uma vida miserável como mendigo (pobreza extrema), estava entre os esquecidos e marginalizados pela sociedade. O texto nos dá uma boa pista quanto a maneira como eram tratados os da classe dos ninguéns em Jericó. “E muitos o repreendiam, para que se calasse;” Bartimeu era mais um dentre a multidão dos excluídos pela elite judaica e pela sociedade, não tinha a ninguém a quem recorrer se não ao Deus de Misericórdia. 

O grito de desespero do excluído ecoa entre a multidão. E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim! Um grito de quem por muitas das vezes não tem o que comer, sem lugar para se abrigar, com saúde fragilizada, sem alguém para oferecer um ombro amigo. Enfim, sem perspectiva de uma nova esperança e sem dignidade.  

Bartimeu estava incluso no grupo dos esquecidos como no caso do coxo que estava assentado na porta do templo, dos leprosos, da mulher do fluxo de sangue, do lunático, das prostitutas e publicanos funcionários do estado. Essas pessoas viviam em sua maioria na Galileia, lugar onde Jesus começa seu ministério. 

Em meio ao sofrimento emerge a boa notícia. É chegado o reino de Deus. Jesus o Nazareno passava por ali. O cego não se intimida com a pressão negativa e preconceituosa da sociedade de Jericó. Ele clama pelo filho de Davi, o Deus encarnado, a esperança para os cansados e sobrecarregados, o alivio para os que sofrem, o libertador, o salvador da humanidade.

Naquele dia Bartimeu encontrou dignidade. Jesus o curou, ele passou a ver e seguiu-o pelo caminho. Renasce uma nova vida, uma nova esperança, um novo amanhecer. As boas novas do reino chegaram para um ninguém.  

Ao passar a viver e ver a vida, agora com Jesus, aquele homem recupera sua dignidade como ser humano, passou a ser gente, recuperou a auto estima, não precisava mais mendigar o pão, o Evangelho do Reino lhe trouxe a oportunidade de enxergar a vida além das migalhas e sobras depositadas em sua vasilha pelos que passavam pela estrada. 

Ele passa a caminhar com Jesus, o homem da Galileia que atendeu ao clamor de um miserável sem voz. Dali em diante ninguém mais poderia repreender Bartimeu, para que se calasse, pois não estava mais assentado à beira da estrada, sujo de poeira e com fome, ele parte em busca de novos horizontes, de uma vida abundante, cheia de alegria e rodeado de amigos.

O encontro de Jesus com o cego de Jericó nos traz algumas implicações práticas. Quantos Bartimeus estão vagando pelas ruas e becos de nossa cidade? Não seriam em sua semelhança os cegos que mendigam nas paradas de ônibus ou nas esquinas? Ou moradores de rua que dormem nas calcadas e debaixo de viadutos? Ou ainda os homossexuais e prostitutas que vagam pelas noites em constante perigo de morte? Jesus foi ao encontro de Bartimeu, e o acolheu. Ao exemplo do Homem de Nazaré, não devemos também ir ao encontro e acolher os que sofrem? 











Reações:

0 comentários:

Postar um comentário