sábado, 24 de agosto de 2013

Evangelho Integral

Por Marcos Aurélio dos Santos 

A criação está em crise. A maldição que causou dano ao casal adâmico se alastrou de maneira tal, que toda criação foi afetada. Basta folhearmos algumas páginas do livro do Gênesis, como também de outros, que claramente encontramos os sinais da degradação. Violência, doenças, sofrimento, decomposição material, inimizade entre os homens, Aumento do sofrimento na geração da humanidade, maldição sobre a terra, morte física e espiritual.

O grande Jardim chamado terra e o homem estão em apuros, gemendo, a espera da redenção. Isto porque a sugestão da serpente foi bem vinda e atrativa aos olhos do casal, contrariando a vontade do Criador e Pai do universo. Então, a humanidade como toda a criação está sobre condição de deterioração aguardando a consumação de todas as coisas (Gn. 3). 

O episódio catastrófico do Éden atravessa toda a história e chaga até nossos dias. Os efeitos da queda refletem o quanto precisamos ser transformados integralmente. A corrupção humana e o mal encontrado nas estruturas que estão sobre o controle do diabo nos faz refletir de maneira relevante a urgência de uma restauração de forma integral. Não apenas o homem mas o todo deverá passar pelo processo de transformação causado pelo poder do evangelho.   

O pecado corrompeu o homem em sua integralidade. Numa linguagem tricotômica, a decomposição afetou corpo, alma e espírito. O mal surtiu efeito e afetou a humanidade por completo. A consequência causada pela ruína humana foi o bloqueio de acesso ao Eterno, privando o homem de ter comunhão com ele. O pecado do Éden gerou inimizade entre a criatura e o criador. Salvar o indivíduo em sua integralidade, implica em alcançá-lo em suas várias dimenssões nas quais algumas delas são: Espiritual, física, psicológica, social, cultural e ecomômica. 

A queda gerou no homem um espírito egoísta onde seus pensamentos e ações ficaram centrados em si mesmo em detrimento do outro. O Adão que gerenciava a criação, depois da queda se transforma em um indivíduo egocêntrico. Os cuidados com as coisas que foram criadas e com o próximo não são mais a prioridade daquele que foi criado à imagem de Deus. 

Deus em sua infinita misericórdia decidiu restaurar a criação. Ele resolveu enviar o Filho Encarnado, nascido de mulher, gerado pelo poder do Espírito Santo, que em sua missão toma forma de servo para anunciar o evangelho integral, as boas novas do Reino, o evangelho que traz em sua essência, a transformação de tudo, de forma completa para a glória do Pai. 

Na proposta de Jesus, é pregado o evangelho transformador e poderoso para restaurar o homem na sua totalidade. O evangelho integral busca transformar o interior humano no qual resulta em novo nascimento e vida eterna com Cristo (Jo.3). Logo, este evangelho toma de forma inevitável, dimensões maiores restaurando de maneira extraordinária e poderosa toda a criação. 

Este poder transformador supera de maneira abundante o que foi corrompido pela queda. A maravilhosa graça concedida à humanidade por meio do sacrifício vicário de Cristo. Esta é manifesta revelada no amor de Jesus que por meio deste evangelho, somo confrontados a viver na prática seus ensinos. No Evangelho, não há uma separação do homem em duas partes, e, portanto, não pode haver exclusividade neste projeto de restauração. Deus não salva apenas almas, mas o homem e mulher de forma integral. 

Nessa perspectiva, a incumbência de fazer discípulos, requer de nós mais do que meros esforços em encaminhar as “almas” para o céu. É uma tarefa que nos desafia a cuidar de gente. É preciso ver o discípulo como Jesus o viu, enxergando sua carência de comunhão com o eterno, mas também o assistindo em suas diversas necessidades.

Nos ensinos de Jesus de Nazaré, o discípulo é comissionado também para fazer o bem. Como disse Tiago, fé sem vida não é fé, é defunto. Segundo o apostolo, irmão de Jesus, somente uma fé viva está disposta a fazer o bem ao próximo, somente uma fé vibrante se compadece do necessitado. Toda fé que se preza, deve estar acompanhada de obras. (Tg.2.14).

A parábola do bom samaritano nos dá luz para compreendermos melhor o evangelho integral ensinado por Jesus. As boas novas nos desafiam a viver na prática os valores do Reino. Acolher o próximo está muito acima das práticas ritualísticas do templo, fazer o bem não está condicionada a nenhuma regra, rito ou dogma religioso, esta está profundamente atrelada aos valores do Reino ensinados por Cristo em seu Evangelho.

Então, o discípulo é confrontado a encarnar valores nos quais transcendem a justiça humana. Segundo a parábola contada por Jesus, a motivação que levou o bom samaritano a fazer o que os religiosos não fizeram, foi sua atitude de piedade (Lc.10.33).

No Reino é assim, não são as regras que determinam nossas práticas como cristão, mas uma vida piedosa e submissa à vontade do Pai Eterno, uma vida de renuncia que sempre prioriza o outro em detrimento de nós mesmos, uma vida de serviço ao próximo, olhando para suas necessidades, uma vida que coloca o discurso em ultimo plano, mas prioriza o fazer. Fazendo o bem sem olhar a quem. 

No evangelho do Reino propagado por Jesus, todos caminham em pé de igualdade, não há espaço para a figura do super-discípulo. Parafraseando o Mestre dos mestres: Aquele que desejar ser o maior seja servo de todos, o que quiser ser o primeiro que seja o ultimo, o que almejar lugar de destaque, antes se torne o menos conhecido. Todo serviço como todas as nossas demandas devem ser para beneficio outro, pois assim Cristo o fez. 

Caminhar ao lado do outro é a regra de ouro. Amparar o pobre, cuidar dos desvalidos, acudir o enfermo é coisa para bom samaritano, esta prática não está na agenda dos religiosos, por esta razão Deus está à procura de bons samaritanos para serem cooperadores em sua missão. 

Gente que gosta de gente, homens e mulheres que estão dispostos a colocar os valores do Reino acima dos terrenos, pessoas que depositaram seu coração no que é eterno, como no exemplo do homem de Samaria que não era avarento, pois não se preocupou com a conta da hospedaria, mas com a recuperação da saúde da vítima que foi assaltada e espancada gravemente e deixado à beira no caminho.

No Reino, devem-se valorizar as pessoas e não as coisas. O bem feitor de Samaria poderia ter a priori procurado os salteadores para recuperar o que foi levado, mas sua atitude de piedade colocou o próximo em primeiro plano. Cuidar dos ferimentos e providenciar abrigo para o homem ferido foi sua prioridade. 

Esta é a proposta desafiadora do evangelho do Reino. Transformar vidas e comunidades de forma integral, anunciar as boas novas de salvação, caminhar ao lado do próximo para que haja transformação no mundo e a igreja possa realizar o cumprimento da grande comissão. 


  

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