segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uma Igreja Genuinamente Nordestina

Por José Egberto Sátiro de Moura


A Igreja de Cristo no Brasil nasceu após o surgimento da ultima expressão do pentecostalismo no país. No final da primeira década do século XX, no início da segunda década nasceram as principais e maiores denomina-ções do pentecostalismo clássico; a Congregação Cristã e a Igreja Assembleia de Deus, ambas cons-tituíam movimentos dissidentes de duas denominações históricas: a Igreja Presbiteriana do Braz (São Paulo) e a Igreja Batista em Belém do Pará, respectivamente. Já em 1932, o pentecostalismo estava espalhado em 15 Estados da federação brasileira: Rio de Janei-ro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Maranhão, Pará e Amazonas. 

 A história da Igreja de Cristo no Brasil começa com um dos principais lideres intermediário da Assembleia de Deus. O Pastor Manoel Higino de Souza (1900 a 1975) nasceu de uma família católica, na cidade de Angicos Rio Grande do Norte. Aos dois anos de idade mudou-se com os pais e fixou residência em Bragança, no Estado do Pará.

Ainda garoto, sentiu interesse de conhecer as Sagradas Escrituras e seu primeiro contato com a Bíblia foi através de uma madrinha, também residente no Pará. Manoel Higino de Souza era um artista: cantor, compositor, e instru-mentista, tocava violão, acordeom, bandolim, cavaquinho, e citara. O primeiro contato com o protestantismo foi em 1918, através de um amigo que se convertera na capital. O amigo o encontrou quando ele se apresentava numa festa, e disse que desejava falar-lhe em particular. Revelou-lhe que era crente: assistira a um culto e entregara-se a Cristo conforme relata a filha de Manoel Higino de Souza a Alexandre Carneiro de Sousa numa entrevista para a tese de Mestrado. Nesse contexto converteu-se ao protestantismo e transformou-se num eloquente pregador ganhador de almas com boa capacidade de convencer as pessoas a aderirem à fé evangélica. A partir da conversão, começou logo a trabalhar como pregador do evangelho. Viajava incansa-velmente por diversas cidades, em toda parte muitas pessoas aderiam ao protestantismo por seu intermédio. Seu ministério foi tão destacado que com apenas 17 anos foi ordenado ministro pela Igreja Assembleia de Deus. Pastoreou em Nova Cruz 1921, em Natal de março de 1922 ao final de 1923, retornando a Belém do Pará pastoreou em Manaus no Amazonas. Dez anos após sua trajetória foi-lhe confiada a importante missão de fundar uma Igreja em Recife, tarefa que rejeitou, dizendo ter recebido uma revelação especial para evangelizar a cidade de Mossoró Rio Grande do Norte. O retorno de Belém do Pará para o Estado onde nascera ocorreu em 1927, no mesmo ano em que Lampião invadiu a cidade de Mossoró, desamparado de tudo, pois os missionários nada lhe deram, a não serem livros para vender. 

 A viagem fora de navio, de Belém a Fortaleza e de Fortaleza a Areia Branca-RN. Chegaram a Mossoró de trem. Na estação, um companheiro de viagem ofereceu-lhe um automóvel para levar a família para a casa de um tio a quem conhecia apenas de nome. Segundo o jornal Boa Semente, de Nº 109, de junho de 1930, no percurso para o bairro, falou do evangelho para o chofer, um senhor chamado Macário Nogueira que se converteu ali mesmo. Em Mossoró implantou a Assembleia de Deus. No entanto a parti de 1930 a denominação enfrentou uma crise doutrinária entre os missionários estrangeiros e os pastores brasileiros culminando com a reunião de 1930 da qual Manoel Higino de Souza foi o Secretário.

 Segundo o depoimento de João Vicente de Queiroz, no encontro com Manoel Higino de Souza em Mossoró, em 1930, percebeu que havia uma tensão doutrinária na região, por divergência de ideias entre este e os missionários, o que já vinha se arrastando desde algum tempo. Em 16 de maio de 1932, na cidade de Itaú-RN, o grupo solidificou sua posição numa reunião liderada por Manoel Higino de Souza, que contou com as presenças de Gumercindo Medeiros, Eustáquio Lopes da Silva, Tomaz Benvindo, Francisco Juscelino do Nascimento, Candido Barreto, Domingos Barreto e João Morais.

Nesse contexto Manoel Higino de Souza autor de 40 hinos na Harpa Cristã do ano de 1932, sendo um de Elvira Seabra de Souza, além de 13 Hinos do Saltério dos quais sete destes já estão na Harpa Cristã de 1932, ele se destacava tanto na Assembleia de Deus como na Igreja de Cristo no Brasil, por ser missionário e compositor tendo vários hinos publicado no hinário oficial da denominação. Nesse contexto em 1932 ocorreu um incidente entre Manoel Higino de Souza e Nils Kastberg redator do Mensageiro da Paz e responsável pela publicação do hinário da igreja. Na publicação do hinário em sua gestão, Nils publicou um hino do Pr. Manoel Higino de nº 77 com a letra alterada, trazendo sérias implicações doutrinárias o hino original dizia:

“lamento os que prosseguem, para a triste perdição, desprezando o convite, da grande salvação”. 

Foi publicado com a seguinte alteração:

 “Choro pelos que se desviam, para a triste perdição, desprezando o convite da grande salvação”.

 Como vemos a letra original refere-se ao não protestante perdido por rejeitar o convite da salvação. A letra alterada refere-se à perdição do protes-tante que se desvia do caminho de Deus. Manoel Higino não concordando com a alteração solicitou por carta a correção da letra do referido hino. O missio-nário respondeu que não o considerava em condições de corrigir qualquer trabalho seu. Em nova carta o Pr. responde: “Se o irmão não pudesse corrigir o hino que não publicasse”. A resposta do Missionário foi Drástica: “Não vou retirar somente este hino, mas todos de sua autoria, que tenham sido publicados na Harpa”. Este foi o Estopim que faltava para levar Manoel Higino de Souza à dissidência. Sua liderança no processo de criação da Igreja de Cristo no Brasil certamente está relacionada com suas habilidades como orador e músico, que lhe davam capacidade de sozinho, formar grupos de simpatizantes ao seu redor.

O segundo motivo foi à intervenção na Igreja de Mossoró realizada por três pastores: Cicero Araújo Lima, Francisco Gonzaga e Luiz Chaves, sob a acusação de que o pastor Manoel Higino de Souza estivesse pregando doutri-nas Falsas. Os interventores chegaram de surpresa, em dezembro de 1932, num culto que estava sendo realizado sob a direção do Pr. Gumercindo de Medeiros e assumiram a liderança dos trabalhos. Num desses momentos o Pr. Francisco Gonzaga perguntou quem estava de acordo com a doutrina pregada por Manequim, os que se identificaram receberam a ordem para se retirar. Com isto, o Pr. Manoel Higino de Souza assumiu a liderança do grupo dissidente.

A cisão aconteceu por motivos exclusivamente doutrinários e foi apressada devido aos fatos acima citados. Contudo em 13 de dezembro de 1932. Em Mossoró Rio Grande do Norte, oportunidade em que o Pr. Manoel Higino de Sousa, acompanhado de três evangelistas, Gumercindo Medeiros, Eustáquio Lopes da Silva e João Vicente de Queiroz e cinco auxiliares de trabalho Tomaz Benvindo, Francisco Targino do Nascimento, Candido Barreto, José Sotero de Morais e Jonas Galvão de Figueiredo, oficializaram sua saída da Assembleia de Deus em carta dirigida ao Missionário e Pastor Nils Kastberg, acompanhada das credenciais de ministros se desligando completa-mente. Vale ressaltar que João Vicente de Queiroz, na época evangelista já havia se desligado da Assembleia de Deus em Morada Nova Ceará entregando sua credencial no dia 11- 06 de 1932, ao Pastor Juvenal Roque de Andrade. 

O sistema administrativo implantado na nova Igreja colocava um no poder, o missionário os outros demais sob sua autoridade. Manoel Higino de Souza era um homem amável, que gostava de abraçar a todos. Tratava-se porem de uma autoridade paternalista e sob sua gestão, a nova Igreja espalhou-se pelo Oeste do Estado e já em 1933 chegou à capital. 

 A Igreja de Cristo no Brasil é uma denominação de moldura pentecostal, fundada no Nordeste brasileiro, em Mossoró Rio Grande do Norte no ano de 1932. O seu surgimento dá-se em função de uma dissidência na Assembleia de Deus, a qual na década de 30 passava por graves crises internas em consequência de lutas pelo exercício hegemônico do poder eclesiástico. É uma igreja com proposta “Tupiniquim”, genuinamente nordestina, historicamente, caracteriza-se como a primeira igreja evangélica nativa brasileira, caminhou boa parte do tempo à margem da história oficial dos evangélicos no Brasil. Nesse contexto a Igreja de Cristo no Brasil é uma igreja com características singulares, foi à terceira denominação pentecostal que se estabeleceu no país, a primeira denominação protestante a ser administrada por uma liderança totalmente brasileira e nordestina. Foi também a primeira igreja produto de uma dissidência dentro do pentecostalismo nascente do Brasil, nasce sob o signo de uma quadrupla discriminação: era protestante, pentecostal, nordestina e dissidente. A Igreja de Cristo no Brasil viveu no anonimato por muito tempo. Dois foram os motivos do anonimato. O primeiro foi o de ordem documental. Historicamente a memória desta igreja é essencialmente de natureza oral. Nunca houve anteriormente nenhum esforço ou qualquer interesse dentro da própria igreja ou fora dela pelo registro e publicação de sua história. 

 Na história escrita do protestantismo brasileiro essa igreja nunca existiu. A ausência de iniciativa interna está intimamente condicionada às origens sociais da Igreja de Cristo: desde seu surgimento até à década de setenta, a maior parte dos membros e seus principais líderes eram egressos das categorias humildes da sociedade, cuja educação era mínima. 

 O Segundo motivo é o de caráter regionalista. A história do protestantismo no Brasil ainda é, na sua maior parte, a história da Igreja do Sul e Sudeste. Isto se contextualiza tipicamente na problemática das diferenças regionais do Brasil. Evidentemente a Igreja de Cristo no Brasil, é uma igreja pobre que surge no Nordeste um dos setores mais pobres da região do país teve que lhe dar com a desvantagem de ocupar a periferia do centro onde a história religiosa está em evidência. Nesse contexto todas as igrejas históricas estabeleceram no sua sede no Sul e Sudeste do País. Ela nasce como denominação e se desenvolve no interior do Estado do Rio Grande do Norte: dai parte para outros Estados do Nordeste e do Sudeste, amparada num modelo marcantemente rural, que vai gradativamente mudando a partir dos anos oitenta. Em organizações com este perfil, a experiência está acima da necessidade de documentação e isto é o reflexo do padrão cultural do grupo e das relações informais que se estabelecem no espaço social onde está inserido. 

O Doutor em Sociologia Alexandre Carneiro de Souza, também pastor da igreja, relata em sua tese de Mestrado que o rompimento de 1932, fez nascer uma igreja Nordestina com liderança própria da região, com o desafio de realizar um projeto de igreja tendo como base a experiência adquirida no curto espaço de tempo de convivência na Assembleia de Deus. A tarefa não era fácil excetuando-se o Pastor Manoel Higino de Sousa, os demais funda-dores da igreja eram obreiros fiéis, mas que haviam aderido recente-mente à nova organização. Todos eles haviam crido a partir do ano de 1927, ano em que Manoel Higino de Souza havia chegado a Mossoró-RN. 

Nessa conjuntura a história da Igreja de Cristo no Brasil, de 1932 a 1987 é necessariamente a história de três destacados pastores, patriarcas de liderança carismática e centralizadora: Manoel Higino de Souza-Missionário de 1932 a 1947. Eustáquio Lopes da Silva-Missionário de 1947 a 1961 e João Vicente de Queiroz-Presidente de 1961 a 1987. A saída da Assembleia de Deus confinou a igreja nascente ao isolamento, tanto em nível geográfico, como em nível de recursos, técnicas e intercâmbios culturais com os demais Estados Brasileiros e com outros países que pudessem apoiar na época a igreja dissidente.


Este texto é parte do livro; Biografia da Igreja de Cristo no Brasil no contexto da evangelização brasileira escrito pelo pastor José Egberto Sátiro de Moura.  




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