terça-feira, 8 de maio de 2012

A Teologia do Contentamento

Por Marcos Aurélio dos Santos 

Vivemos dias difíceis. Enfrentamos séria crise no meio evangélico quanto ao contentamento no que se refere às coisas temporais.
Bens, saúde, estabilidade financeira e outras coisas mais, limitadas a esfera temporal e terrena. A valorização das posses atropela o bom senso e o contentar-se com o que temos sem reclamar.
Por muitas vezes nossas orações refletem esta realidade. Petições em que o individuo motivado pela relação do ter (Relação que ver Deus apenas como fonte de consumo) pede para si, raramente para o próximo onde geralmente os pedidos estão relacionado a bênçãos materiais. É uma oração que não enxerga o por vir, o celestial, o Reino, mas apenas o aqui e agora.

Esta crise vem se alastrando de tal forma, que não é somente encontrada no neo-pentecostalismo trazido pelas igrejas americanas da prosperidade, mas já está bastante presente no meio pentecostal e em outros seguimentos.

Não queremos dizer com isto que o cristão não possa possuir bens.  Trabalhar honestamente, administrar com equilíbrio as finanças e ser negociador honesto, certamente resultará em benção e prosperidade financeira. Mas fazendo tudo com total dependência do Espírito, refletindo sobre as palavras de Jesus que diz que nem só de pão viveremos, mas do alimento com nutrição espiritual (Mt.4.4) vigiando, colocando a busca do Reino de Deus como prioridade, não deixando que os bens materiais seja o tesouro do nosso coração (Mt.6.21;33).

O apostolo Paulo ao escrever sua carta aos irmãos da igreja de Filipos, quando se encontrava em algemas, Possivelmente em Roma, expressa sua gratidão a Deus dizendo que as experiências vividas por ele após sua conversão, ensinaram-lhe a viver contente em toda e qualquer situação. Expondo seu coração aos irmãos daquela igreja, Paulo diz que já teve experiências tanto de fartura como de fome, assim como de abundancia, como de escassez (Filipenses. 4.11-12).

A busca do contentamento exercida por Paulo tinha suas raízes fundamentadas naquele que o fortalecia. Ele diz: Tudo posso naquele que me fortalece. (Filipenses. 4.13).  Essa frase citada por Paulo, revela que todo o suprimento material de que ele precisava, vinha de Deus. Para ele, situações como fome, doença naufrágio e dentre outras, eram superadas pelo poder fortalecedor do Senhor Jesus. Paulo entendia que em situações de crise, deveria estar totalmente dependente do Deus que supria suas forças nos momentos de fraqueza. 

Em nossa busca desenfreada pelo material, não há lugar para o contentamento e passamos a confiar em nossas própias forças. Somos inevitavelmente influenciados pelo espírito capitalista de nossa época. Somos consumistas compulsivos, indivíduos sem limites, Tudo para nós parece necessário, tudo é atrativo. Nossas relações com o próximo por muitas vezes é baseada no que ele possui, e não no que ele é. Valorizamos bens materiais, desprezamos pessoas, rejeitamos o necessitado, vidas que Cristo comprou com seu sangue precioso.

Há extrema urgência em retornarmos às escrituras e refletir sobre o ensinamento do contentamento ensinado por Jesus e seus apóstolos.

Em sua primeira carta escrita ao seu filho na fé Timóteo, Paulo mais uma vez expressa seu pensamento a cerca do contentamento (gr.autrarkeia= suficiência). Paulo agora aconselha Timóteo a trilhar pelo mesmo caminho. Ele diz que é de fundamental importância, como também de grande valor, a piedade acompanhada de contentamento (1 Tm.6.6), e que a relação pelo qual devemos buscá-la, dar-se pelo fato de que tudo isso é temporal, pois nada temos trazido para o mundo, nem ciosa alguma podemos levar dele (1Tm.6.8).

Paulo não está incentivando Timóteo a ter uma vida de itinerante, desprovido de todo tipo de bens materiais, mas alerta seu filho na fé, a não cair na armadilha do amor à riqueza, que é perigoso. Sua preocupação não era com a qualidade de vida que os crentes daquela comunidade deveriam ter, mas levá-los a buscar o contentamento para que a fé em Cristo fosse preservada (1Tm.6.9-10).

Não muito distante, muitos de nós cristãos precisamos refletir sobre as palavras de Jesus, quando disse que as raposas têm covis, as aves do céu, ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mt.9.58).

É engano pensar que ser discípulo é sinônimo de vida confortável com fartura de bens e sem possibilidade de sofrimento. Os interessados em segui-lo numa perspectiva de receber algo em troca, sofrearão grande frustração, pois Cristo chama os que estão dispostos a renunciar tudo quanto tem (bens materiais) e até mesmo a própria vida em prol do reino de Deus, e isso requer total desprendimento de coisas materiais. (Ver Lc 14.33; Mc 8.35).

O ensinamento de Jesus no sermão do monte sobre o reino de Deus, aponta para uma esfera espiritual, totalmente fora de uma visão terrena e humana (Mt. Cap.5-7).

Que possamos refletir também sobre as palavras de Jesus quando ele disse que não devemos estar ansiosos quanto a nossa vida quanto ao que haveremos de comer e vestir (Mt.6.25-34).

Pergunto, como disse o próprio Jesus: Não somos mais valiosos do que os pássaros do céu? Não somos vais importantes do que os lírios do campo? O valor do corpo está em sua ressurreição no grande dia da vinda do Senhor Jesus. O da vida está na esperança, no que está por vir.

O contentamento é encontrado quando se percebe que a prioridade da busca é o Reino de Deus e a sua justiça, e o material é suprido de forma natural (Mt.6.33). Vivemos o prenuncio desse Reino. Devemos buscar intensamente a sua justiça. O contentamento não deve está naquilo que Deus nos dá pela sua maravilhosa graça, mas pelo que ele é, e nas suas promessas que haverão de se cumprir na sua vinda.

Somos desafiados a trilhar no caminho do contentamento. Longe de nós deve estar a queixa, a ansiedade, o descontentamento, pois Cristo é a nossa provisão.
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