sábado, 24 de setembro de 2011

As Bem Aventuranças - Cultivando os Valores do Reino

Por Marcos Aurélio dos Santos

Ao lermos o sermão do monte, que tem seu inicio no capitulo cinco e se encerra no capitulo sete do evangelho de Mateus, o ensinamento de Jesus estimula seus primeiros discípulos a fazer uma releitura da interpretação da lei, desafiando-os a um retorno a mensagem dos profetas do antigo testamento. A nova proposta tinha como objetivo uma reinterpretação da lei numa tentativa de redescobrir o verdadeiro sentido da espiritualidade, que por sua vez deveria resultar numa relação amorosa e verdadeira com o Deus de Israel.

Na nova aliança, a adoração deveria estar totalmente desprendida do formalismo, legalismo e tradicionalismo, fato que predominava na prática religiosa dos Judeus da época. O retorno ao ensino dos profetas causaria transformações profundas nos corações distanciados de Deus. A religiosidade expressada apenas no discurso, nos ritos e na formalidade, deveria tomar dimensões maiores onde o coração deveria ser o ponto de partida de toda adoração.

Na nova proposta de Jesus de Nazaré, a verdadeira expressão de espiritualidade cristã deve se evidenciar na vida prática, nos acontecimentos cotidianos, que por sua vez os valores do reino de Deus devem ser expressos. Crer e Ser deveria ser o alvo de todo discípulo.   

No capitulo cinco, dos versículos um ao doze, Jesus ensina que a verdadeira felicidade é encontrada no cultivo de valores que transcendem a vida temporal. Estes estão acima de posses materiais que podem trazer uma felicidade momentânea, incerta, imperfeita e limitada, ao passo que a primeira é perfeita e eterna.

Jesus inicia seu sermão dizendo que bem aventurado, (Gr. Makarios= Feliz, Abençoado), são os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus (v3). Não apenas os desprovido de bens materiais, mas indivíduos de coração quebrantado, humilhado, submissos á vontade do pai, reconhecedores dos grandiosos benefícios da graça divina, reconhecendo que tudo que tem de bom, quer material, quer espiritual, provem dessa graça.

Ser humilde de espírito é reconhecer suas limitações, fraquezas e pecados diante da poderosa soberania de Deus, é ser como meninos, totalmente dependentes dos pais (Mt. 18.3-4), que somos inevitavelmente dependentes de Deus (Jo.15.1-5). Os que pretendem confiar em si mesmo, rejeitando os cuidados do pai celestial, haverão de sofrer danos (Jo.15.6).


A humildade é encontrada naqueles que estão dispostos a esvaziar-se de si, e pedir ao pai o enchimento do Espírito (Ef.5.18). São aqueles que sempre reconhecerão o senhorio de Cristo, colocando-se na condição de servo e não de senhor. Estes não terão mais a pretensão de achar que são humildes, pois o exercício do quebrantamento, da humilhação, da piedade e do amor a Deus e ao próximo, os velará a trilhar no verdadeiro caminho da humildade.

No versículo quatro, Jesus diz que bem aventurados são os que choram porque acharão consolo. O choro da bem aventurança pode ser expresso em várias circunstâncias. Podemos chorar lamentando nossos próprios pecados, reconhecendo nossa condição de pecador dependente da graça de Deus, chorando em momentos de confissões sinceras de pecado acompanhado de arrependimento, aprendendo nas tribulações, buscando refrigério em Deus. Não o choro do desespero, da incerteza, mas de um coração humilhado diante de Deus, não lágrimas motivadas pelo remorso, como Judas e Esaú que ainda derramando-as, não achou lugar de arrependimento (Hb. 12.16-17). Podemos chamar essa experiência de choro do Espírito, onde as emoções humanas dão lugar à ação poderosa do Espírito Santo na vida do servo de Deus.

Outro motivo louvável para chorar é o choro por amor aos perdidos. O amor pelos não salvos deve produzir em nós compaixão, desejo ardente de pregar o evangelho, ir ao encontro deles, servindo, doando-se, amando o próximo. Em missões para onde o Senhor nos envia, certamente ele levantará homens e mulheres dispostos a regar o pasto com lágrimas por amor ao reino de Deus. As orações de interseção, as viagens, os conflitos, as perdas, os fracassos na evangelização e dentre outras situações na missão, poderão produzir lágrimas em um coração ardente e sincero de um missionário de Deus.

Em meio ao choro virá a certeza do consolo divino. Os que derramaram lágrimas encontrarão a felicidade na promessa de que o próprio Deus as enxugará, e nos apascentará (Ap.7.17; 21.4).  Esta será a recompensa para aqueles que sinceramente quebrantaram os corações. Na caminhada da vida, se submeteram a sua vontade. Estes, nunca mais haverão de chorar porque serão eternamente consolados por Cristo.

O Cordeiro tomará o papel de Pastor e do seu trono nos apascentará, nos guiará para fontes de água viva e reinaremos eternamente com ele (Ap.7.17).
Os mansos também encontrarão felicidade. Se alguém busca esta virtude certamente a encontrará em Cristo. Em sua missão ele desafia seus discípulos a aprender dele sobre mansidão e humildade. Aqueles que estivessem dispostos a se dobrar diante de seu julgo, que não seria mais o julgo e o fardo pesado da obrigação da lei com suas observâncias e ordenanças, impostas pelos religiosos da época, passariam a exercitar a virtude da mansidão (Mt.11.29).

Ser manso é equivalente e ser humilde. É ser submisso a Cristo, aprender com ele a bem aventurança de ser moderado, ouvinte, sereno, paciente, equilibrado, acolhedor, é ter espírito de mansidão (1Pe.3.4;1 Cor.4.21; Ef. 4.2).

Outro personagem bíblico merece atenção, quanto ao assunto da mansidão. No livro de Números, no capitulo 12 versículo 3, a palavra manso vem do hebraico Anâw, uma referencia aos pobres, simples e ignorantes, mas também refere-se as virtudes de humildade e ternura encontradas no servo Moisés. Ele se destaca entre os líderes do antigo testamento como o homem mais manso entre os homens da terra (Nm.12.3). Sua trajetória na missão que lhe foi entregue revela o quanto Moisés tinha esse espírito de mansidão. Intercessor paciente, com mansidão aguardando a resposta de Deus no tempo oportuno, submisso a vontade soberana de Deus como pastor do rebanho que lhe foi entregue.

Certamente o exemplo de Cristo, como do servo Moisés, nos traz lições valiosas quanto ao ensino das bem aventuranças. Feliz é aquele que aguarda atenciosamente o cumprimento dessa maravilhosa promessa de herdar a terra juntamente com Cristo.
Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos(V.6).

Essa justiça implica em reconhecer o quanto somos pecadores, convictos que fomos justificados pela graça de Deus. O Dr. Martin LIord-Jones comenta:
“ter fome e sede de Justiça significa anelar por ser livre do pecado, porque o pecado nos separa de Deus. Assim sendo, o desejo de obter a justiça é o desejo de estar bem com Deus, desejo de desvencilhar do pecado...” (Citação de Jones retirado do livro ministério cristão e espiritualidade de Durvalina Bezerra).


Em nossa relação com Deus inevitavelmente não estaremos em plena comunhão numa forma total e completa, isso pelo fato de nossa velha natureza ainda atuar em nós. O escape está na justificação em Cristo Jesus que pela sua maravilhosa graça, por meio da fé, nos livra de toda culpa (Ef. 2.8-9).


A fome e sede pela justiça são saciadas quando recusamos a perigosa sugestão da carne na auto- justificação.  Não devemos procurar desculpas para justificar nossos pecados, mas com atitude de arrependimento devemos nos aproximar de Deus como reconhecedores de sua graça. Admitir nossos erros e buscar o gracioso perdão. Procurar refrigério e consolo em um Deus rico em misericórdia.


Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia (v7).
Os misericordiosos são aqueles que se compadecem do próximo. Estes têm boa disposição para acolher, não julgam pela aparência, mas com espírito misericordioso leva a carga do outro, suportando as debilidades dos mais fracos, não agradando a si mesmo, mas usando de misericórdia para com todos (Rm.15.1).

Ser misericordioso é ter compaixão pelo necessitado colocando a misericórdia acima dos ritos e obrigações religiosas. Jesus ilustra bem essa verdade na parábola do bom samaritano. O levita e o sacerdote priorizaram suas obrigações religiosas em detrimento do socorro ao homem ferido, ao passo que o samaritano demonstra uma atitude de bondade, compaixão e amor, transcendendo a forma de espiritualidade praticada pelos líderes religiosos da época.

Quanto de nós por muitas vezes priorizamos as programações eclesiásticas em nossas igrejas, e outras obrigações que são comissionadas aos membros da denominação, em detrimento do exercício da misericórdia?  Quem acolherá o doente? Quem socorrerá o faminto? Quem dará abrigo ao sem teto? Não seria esta a nossa missão?

A bem aventurança em ser misericordioso está no fato de que alcançaremos misericórdia da parte de Deus. Ela virá acompanhada de acolhimento, afeto, perdão, frutos da maravilhosa graça. Esta necessita de ser imitada, buscada desejada, pois o alvo aponta para uma vida que imita Cristo.
Bem aventurados os limpos de coração porque eles verão a Deus (V8). Nessa parte do sermão Jesus propõe aos seus discípulos a busca de uma santidade no interior. O desafio estava em viver uma espiritualidade não exteriorizada. As esmolas, o jejum, a oração como toda prática de espiritualidade deveria partir do interior do homem, a raiz de toda adoração deveria partir do coração (Mt.6.1-18).O exercício de uma santidade no interior motivaria os discípulos a avaliá-los a si mesmo numa auto-sondagem do seu próprio ser.

Foi esta experiência que viveu o teólogo Agostinho de Hipona quando percebeu que o mal não estava do lado de fora, mas em nosso interior. Este é o ponto de partida para uma percepção de nossa natureza pecaminosa e conseqüentemente gerar em nós uma atitude de contrição e quebrantamento, levando-nos a uma total dependência de Deus na busca da santificação. Os limpos de coração terão a grata satisfação de ver Deus como ele é. Contemplar sua santidade e reinar com Cristo eternamente.
Bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus (V.9).

Os pacificadores são os que semeiam a paz. Ser pacifico é aborrecer todo e qualquer tipo de inimizade. Fogem de contendas. Uma das principais características do pacificador é sua capacidade de liberar perdão. Fica em permanente inquietação enquanto não resolver os maus entendidos com um irmão, não permite que seu coração seja solo fértil para semeadura de contendas, raiz de amargura, ódio, rancor e tudo que é contrario a paz e a comunhão no corpo de Cristo.
Os pacificadores não medem esforços para promover a paz. Em situações de conflito entre irmãos, sempre apontam o caminho da reconciliação e do perdão.

Aborrece a maledicência, o exclusivismo, o individualismo, mas com espírito pacificador semeiam os benefícios concedidos pela graça divina, estes serão verdadeiramente chamados filhos de Deus, pois tiveram um estilo de vida semelhante ao do Senhor e mestre Jesus Cristo, são os que refletiram o caráter de Deus em suas vidas.

Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça porque deles é o reino dos céus (v.10). São os que sofrem por amor a Cristo, que em meio às perseguições permanecem perseverantes até o fim. Suportam o sofrimento, sofrem o dano por causa da justiça, renunciam a si mesmo em benefício do reino, estão dispostos a levar a Cruz (Calculam o preço), tem como prioridade de vida a busca do reino de Deus e sua justiça (Mt.6.33), encaram as perseguições como um  estimulo para prosseguir na caminhada com desejo de estar mais próximo de Deus, colocam os valores celestiais acima dos valores terrenos. O regozijo está na grande recompensa que vem do céu, sabendo que aqueles que vieram antes de nós, também sofreram perseguições (Mt.5.12).

A verdadeira felicidade certamente será encontrada na busca por estes valores, nos quais transcende o aqui e agora, o humano, o compreensível. Os bem aventurados terão o privilegio de contemplar o sublime, o eterno, verão a grandeza e majestade do reino messiânico, reinarão eternamente com Cristo. Felizes são aqueles que aguardam as promessas divinas firmados na bendita esperança, a saber, o dia da gloriosa vinda de nosso Senhor Jesus Cristo! 
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