segunda-feira, 7 de março de 2011

A Corrupção do Poder político e o Deus Que Ouve o Clamor


Júlio Zabatiero


   Uma teologia relevante, que busca compreender a vontade de Deus e ajudar o povo de Deus a crescer em discernimento, não pode deixar de abordar. Dentre a grande variedade de temas que podem ser objeto da reflexão teológica prática, o exercício do poder é um dos mais significativos, tanto o poder em geral, quanto o exercício do poder político em particular. E, dos muitos ângulos temáticos que o exercício do poder político sugere, a corrupção é uma dos mais urgentes e relevantes.
Logo de início, e de forma óbvia, há que se destacar que não faz parte da vontade de Deus que o poder político seja exercido de forma corrupta. Se, conforme a proposta paulina, as estruturas de poder foram instituídas por Deus para o bem (Romanos 13.3, 4 e 6), não podem compactuar com a corrupção, que é uma das piores expressões do mal no âmbito social, pois ela não só prejudica a sociedade como um todo, como também corrói, corrompe o próprio bem que deveria ser o critério e o resultado da ação governante.

Mesmo procedendo de Deus, as estruturas de poder – como toda atividade humana – estão marcadas pela presença do pecado. Assim como "não há justo, nem sequer um" (Romanos 3.10; cf. Salmos 14.1), não há estrutura de poder que não seja maculada pela presença da injustiça. Embora endêmica à ação humana, a injustiça não deve ser aceita com passividade e resignação. Não só a consciência humana clama contra a injustiça, como a vontade de Deus se insurge contra ela. No âmbito do poder político, a corrupção – ainda que uma realidade esperada – não pode ser tolerada, nem mesmo em suas formas mais "inocentes".

A reflexão teológica, porém, não visa apresentar propostas diretas de ação, nem mesmo para o combate à corrupção. A teologia oferece questionamentos e princípios para a formulação de planos de ação, princípios que devem ser mediados por diferentes formas da análise científica da realidade. Um dos mais importantes princípios teológicos relativos ao poder, e que pode ser aplicado no combate à corrupção institucionalizada, é o da prioridade absoluta das pessoas mais enfraquecidas e vitimadas pelas estruturas sócio-econômicas. 

Uma formulação desse princípio pode ser encontrada em I Coríntios 1.27-28, "Deus escolheu as cousas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as cousas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são."

Em seu contexto original, Paulo usou estas palavras para descrever a composição das comunidades cristãs como expressão da ação eletiva do Senhor. Abstraindo os versos de seu contexto, e procurando formular um princípio teológico aplicável ao exercício do poder político, podemos dizer que o mesmo tem como principal finalidade a defesa e a dignificação das pessoas e grupos sociais mais vitimados pelas estruturações da economia, das relações sociais e do poder. 

Vista sob este ângulo, a corrupção dos atores políticos estatais é perversamente maléfica, pois não só impede a realização dessa finalidade, como também estimula a mesma prática em todos os níveis sociais, em um efeito cascata que acaba por transformar a corrupção em uma epidemia sócio-cultural.

Relembrar governantes dessa finalidade do poder político, e recolocar as instituições estatais no rumo correto, pode ser um dos principais instrumentos de combate à corrupção, na medida em que restaura ao exercício do poder o seu caráter benéfico. São indispensáveis as ações do povo de Deus na denúncia dos crimes e pecados no exercício do poder político. 

Mas elas devem ser acompanhadas constantemente do anúncio da absoluta prioridade do bem maior como razão de ser das instituições estatais. Denunciar e anunciar, com perseverança incansável, são ações políticas que o povo de Deus pode realizar sem ser delimitado por opções partidárias.

 A ação política supra-partidária é mais urgente do que nunca, pois os interesses eleitorais – e eleitoreiros – das partes representadas da sociedade, não pode superar as necessidades das vítimas dessa mesma sociedade que mantém seus olhos e ouvidos fechados ao clamor das pessoas "que não são". Se Deus é o Deus que ouve o clamor (Êxodo 2.24; 3.7-9; etc.), o seu povo também deve limpar seus ouvidos para ouvir o clamor das pessoas que gemem, sufocadas pelos dejetos da corrupção que corrói o bem e a justiça.

Júlio Zabatiero é Doutor em Teologia e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana Independente da Coloninha. Além disso, é professor da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS), presidente da Fraternidade Teológica Latino-Americana, setor Brasil, e professor visitante da Faculdade Teológica Sul Americana.
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