segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Exílio, Profecia e Libertação

Por Marcos Aurélio dos Santos

“Que fora levado de Jerusalém para o exílio por Nabucodonosor, rei da Babilônia, entre os que foram levados prisioneiros com Joaquim, rei de Judá. “ (Ester 2:6).

O exílio Babilônico em 587.a.C, marcou profundamente a vida do povo Hebreu. Tempos de dor e sofrimento. Sob a ordem de Nabucodonosor, houve uma deportação em massa. Lideranças, militares oficiais, inclusive 
o Jovem Joaquim, Rei de Judá foram levados cativos. 

O povo ficou na sua terra, Jerusalém, debaixo de opressão. Esse foi um período crítico para o povo de Deus. O exílio gerou guerra, fome, doenças, desespero e opressão. Este contexto resultou em lamentações, como expressa o profeta Jeremias:   

Por isso digo: "Meu esplendor já se foi, bem como tudo o que eu esperava do Senhor". (Lamentações 3:18).

Era compreensível essas lamentações em meio ao desespero ao ver a desarticulação de um povo que agora estava sem liderança, sem um rei para governar, suas mulheres e crianças sendo vitimadas pela violência, vendo o templo parcialmente saqueado, principalmente saber que daquele momento em diante, sofreriam opressão em sua própria terra.

Entretanto a dor em meio ao sofrimento e lamentações traz algo que surpreende e anima. Na opressão e na dor nasce a esperança!

Esta é a palavra animadora, desafiadora, cheia de amor e coragem do profeta:

“Todavia, lembro-me também do que pode dar-me esperança: Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade! Digo a mim mesmo: A minha porção é o Senhor; portanto, nele porei a minha esperança. ” (Lamentações 3:21-24).

A Esperança nasce em meio a dor do povo. A palavra de Jeremias da parte de Deus vem cheia de amor, misericórdia e esperança. É a manifestação do Deus libertador que desce para uma ação libertária com o seu povo. Esta não é uma esperança meramente superficial, ou distante da realidade e contexto da vida do povo Hebreu. Não! Ela nasce em meio ao sofrimento, na realidade do chão da vida, da história de um povo que luta por libertação. 

A palavra do profeta é desafiadora e chama o povo para a luta e resistência, para um levante de liberdade, para uma vida de arrependimento e fidelidade ao Deus JAVÉ.

Esta frase do Padre José Comblim expressa muito bem qual era a visão de esperança do profeta para o povo na época do exílio bíblico na Babilônia como também nos diversos exílios ocorridos na história da humanidade.  

Comblim diz:

“Ter esperança não é sonhar num mundo diferente, mas trabalhar para que este seja melhor – ao menos em alguns setores. ”

O povo hebreu não deveria ficar apenas sonhando em uma esfera irreal, distante da realidade, mas em uma ação concreta e libertária, confiando nas promessas de Deus, com coragem, deveriam dar continuidade aos afazeres da vida. Esta foi a palavra do profeta de Deus por meio da carta aos exilados:

“Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, a todos os exilados, que deportei de Jerusalém para a Babilônia: "Construam casas e habitem nelas; plantem jardins e comam de seus frutos. Casem-se e tenham filhos e filhas; escolham mulheres para casar-se com seus filhos e deem as suas filhas em casamento, para que também tenham filhos e filhas. Multipliquem-se e não diminuam. Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela". (Jeremias 29:4-7).

O exílio bíblico na Babilônia tem também um caráter místico e simbólico. Diversos exílios ocorreram na história da humanidade. Podemos citar o exílio romano como pena ao condenado, no qual as pessoas exiladas eram consideradas animais, o exílio Galego na Espanha em 1936, do povo pobre do nosso Nordeste que corajosamente fogem da seca e da fome, do exílio político no Brasil na época da ditadura em 1964, estes por se opor ao regime militar imposto na época. Estes e muitos outros registrados na história.

A mensagem profética do exílio traz para nós hoje um levante de coragem e esperança. Em meio a tantos exílios da vida, perda de nossos direitos, opressão ao pobre, violência contra mulheres, crianças, homossexuais e negros da periferia, agricultores expulsos de suas terras, gente pobre sem teto, genocídio de índio e quilombolas. É preciso ouvir a profecia!  

Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. ” (Jeremias: 3.21)

Aí está a nossa esperança, a nossa força vem do Senhor na luta libertária com os oprimidos. Como povo de Deus não deixemos a profecia morrer, levantemos a nossa voz em tom de indignação, movam-se os nossos pés em caminhada, abram-se as nossas mãos para servir na luta pela libertação!  

BIBLIOGRAFIA:

BOFF, Leonardo. BOFF, Clodovis. Como Fazer Teologia da Libertação. Petrópolis: Ed. Vozes, 2010, 140pp.

BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. Petrópolis: Ed. Vozes, 2012, 351pp.

COMBLIM, José. O Caminho: Ensaios Sobre o Seguimento de Jesus. São Paulo: Ed. Paulus, 2004, 226pp.

COMBLIM, José. Cristãos Rumo ao Século XXI. Nova Caminhada de Libertação. São Paulo: 
Ed. Paulus, 1996, 376pp.

BETTO, Frei. Um Deus Muito Humano: Um Novo olhar sobre Jesus. São Paulo: Ed. Fontanar, 2013, 133pp.

BÍBLIA DE JERUZALÉM. São Paulo: Ed. Paulus, 2004, 2206pp.

APOSTILA: Escola bíblica Popular do CEBI.

GAMELEIRA, Sebastião. A Missão de Deus: Recriar a Vida. São Leopoldo: Ed. CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), 2015, 60pp.

SUNG, Jung Mo. Se Deus existe, por que há pobreza? São Paulo: Ed. Reflexão, 2008, 117pp.



  
    





segunda-feira, 2 de outubro de 2017

BÍBLIA, PROFETAS E A OPÇÃO PELOS POBRES

Por Marcos Aurélio dos Santos 

A prática do amor e da justiça devem estar nas entranhas dos seguidores de Jesus de Nazaré. Aliás, a justiça não está desvinculada da espiritualidade cristã, não há dicotomia. É a consciência de justiça do reino que nos move ao encontro do pobre, dos excluídos, dos explorados e marginalizados da sociedade. A justiça de Deus ao oprimido encontra robusta base bíblica. Está registrada nos relatos históricos da bíblia, na vida, nas ações e nas falas subversivas dos profetas hebraicos. Os profetas da bíblia fizeram opção pelos pobres a partir do senso de justiça divina, sob orientação do Deus dos oprimidos e excluídos.

Seria necessário milhares de linhas para descrever a opção dos profetas pelos pobres. Neste artigo não caberá tantos relatos. É importante saber que a opção pelos pobres vai muito além do dar pão. Ela aponta para uma dimensão mais alargada e profunda. Para os profetas e profetizas da bíblia, a pobreza, fome e miséria que permeavam a região onde habitavam era causada pela opressão dos poderosos que concentravam suas riquezas em detrimento da pobreza de muitos.

O profeta Amós em sua denúncia contra os poderes dominantes de sua época profetizou:

“Portanto, visto que pisais o pobre e dele exigis um tributo de trigo, edificastes casas de pedras lavradas, mas nelas não habitareis; vinhas desejáveis plantastes, mas não bebereis do seu vinho.
Porque sei que são muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais resgate, e rejeitais os necessitados na porta” (Amós 5:11,12).

A opressão contra o pobre, o justo, o necessitado tinha uma fonte. As pisadas esmagadoras contra os pobres partiam dos ricos, dos que possuíam e acumulavam bens. Como descreve o profeta, gente que habitava em residência de luxo feita com “pedras lavradas”, cercada de belas e robustas plantações de vinhas. Na linguagem do profeta Amós, pisar o pobre significava cobrar-lhe impostos abusivos, exclui-los da participação dos lucros e forçá-los a trabalhar de sol a sol por míseros salários. Essas ações de opressão dos ricos tinha um objetivo. Deixá-los em sua pobreza sem direito a nenhum acesso às fortunas acumuladas a preço de usurpação dos direitos dos pobres. Uma riqueza que gerava pobreza.

Dentre milhares de textos da bíblia que falam sobre pobreza e justiça, este do profeta Jeremias merece uma reflexão-ação.  
“Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me? ”, “declara o Senhor”. (Jeremias 22:16).
Há uma relevante afirmação do próprio Deus por meio do profeta nesta passagem que aponta para uma espiritualidade que inclui o pobre. Ele afirma: ” Não é isso que significa conhecer-me? ”, “declara o Senhor”. Fica bastante claro que conhecer a Deus para uma relação de amor não se pode descartar o pobre, isto porque a opção pelos pobres não é uma ideia filosófica ou uma doutrina. É uma espiritualidade em Deus, que encontra Deus no rosto dos pobres e oprimidos a partir de uma caminhada na prática.  

Então, esse conhecimento de Deus não é teológico-científico-doutrinal, não é para explicar Deus, mas é uma espiritualidade humanizadora, que nos faz ser gente que ama, que gosta de gente, que nos leva ao encontro do pobre e ao mesmo tempo com Deus. Essa espiritualidade rompe a bolha individualista do egoísmo e transcende para outra espiritualidade que é comunitária, fraterna e misericordiosa, que inclui a todos e todas. Lutar ao lado dos pobres por seus direitos é abrir a cortina do divino para conhecer o Deus de amor e justiça. Essa espiritualidade descrita pelo profeta Jeremias não é dicotômica ou reducionista, ela é integral e libertadora, que denuncia dota a injustiça em todas as dimensões da vida humana, principalmente contra os pobres.
Em nossa prática de justiça do reino, ainda estamos nos limites do dar pão. 

De fato, dar comida a quem tem fome, remédios a que está
doente, abrigo a quem está sem teto e outras ações de socorro são necessários em casos emergenciais. Mas limitar-se a isso é um erro.
Ações de filantropia o capitalismo o faz também, ainda que sem sentimentos, pois o capitalismo quer retorno lucrativo em tudo que faz. Fazem também os religiosos, muitas das vezes para se destacar entre os demais como os benfeitores das boas obras aos pobres. Na espiritualidade cristã se faz urgente e necessário o resgate da profecia, denunciar todo tipo de riqueza que gera opressão e pobreza, acreditar no empoderamento dos pobres para que sejam sujeitos de sua própria libertação.          
    


       

domingo, 27 de agosto de 2017

E Se Jesus Fosse Morador de Jardim Progresso?




 Por Marcos Aurélio dos Santos

 Que dia lindo! Que momentos agradáveis. Pela manhã caminhei e visitei alguns dos moradores da comunidade de Jardim Progresso. Fui bem acolhido em meio a recepções simples com afagos, abraços e apertos de mãos. Tive um momento de prosa com algumas pessoas, acenei para outras e dei um bom dia. Confesso que sou apaixonado por esta comunidade na qual já caminho a mais de 10 anos. Fiz muitos amigos e amigas. Conheço vários dos seus moradores e moradoras, e, uma das coisas que mais gosto de fazer é debruçar meus ouvidos e ouvir suas histórias. Algumas delas são cheias de alegria e esperança mesmo diante de um contexto de desigualdade social em que vivem, outras são marcadas por tragédias, dores e perdas. Alguns aparentemente perderam a esperança, mas não totalmente pois a esperança não morre.  


Ao chegar em casa passei a refletir. Então me veio uma questão. O que Jesus faria como morador da comunidade de Jardim Progresso? Como viveria? Em que ele ocuparia o seu tempo? Que espaços ocuparia? Não são perguntas fáceis se enxergarmos somente o Jesus glorificado. Contudo se olharmos para o Jesus de Nazaré, o Galileu que viveu entre os pobres e favelados da Palestina encontraremos uma pista. Podemos começar a partir da vida simples do Deus humano, do homem de Nazaré.


Em Jardim progresso Jesus não habitaria na casa mais estruturada e segura do bairro, cercada com um grande muro com altura elevada e portão eletrônico. Sua morada seria uma simples e bonita casa sem muro, com um belo jardim onde todos pudessem chegar e se assentar junto a ele e ouvi-lo. Seria uma casa sem porta onde todos poderiam entrar, se aproximar até a sala de jantar e ao redor da mesa cear junto com ele. Não seria uma casa triste pois todos se alegrariam de maneira comunitária. Tudo seria comum. Cada um traria um bocado para juntos partilharem em amor junto à mesa com Ele em meio a abraços e sorrisos. É a celebração da vida!


Certamente Jesus também não passaria a maior parte do dia em sua casa. Não hesitaria em caminhar pelas ruas empoeiradas de Jardim Progresso. Não para passar o tempo ou para descontração, mas para ver, julgar e agir diante da realidade social, política e econômica da comunidade. Jesus certamente buscaria em Deus respostas para a atual situação de exclusão de seus vizinhos e moradores. Iria ao encontro dos mais necessitados e excluídos. Seria uma prioridade! Não ficaria calado diante da falta de saúde, educação, alimentação básica, segurança, transporte e moradia. Seria um morador comunitário-libertário que lutaria pela solidariedade entre as pessoas e pelo amor político. Seria um morador amável, misericordioso, solidário e cheio de sonhos.


Com as crianças de Jardim Progresso, Jesus agiria da mesma forma como faria com os adultos. Acolheria todos os pequeninos. Os chamaria para uma pelada no fim de tarde, envolvia-se com eles em suas brincadeiras, passeava de bicicleta ou de carroça, assentava-se junto a uma calçada ou debaixo de uma árvore frondosa para contar e ouvir histórias, ensinava-lhes sobre cidadania, amor e justiça. Iria até a mercearia ou na padaria do “Boca” comprar pão, bolo e suco para um lanche da tarde com a meninada e celebraria uma linda ceia mirim! Convidaria todas as crianças para visitar sua casa, ofereceria um espaço para que pudessem sentar-se na grama do jardim e ouvir uma linda poesia, um conto, uma parábola, uma palavra de fé e esperança em um mundo de exclusão e desigualdade. Diria para eles que deles é o Reino dos céus e que este Reino está presente na comunidade de Jardim Progresso. Aconselharia aos pequeninos e serem bons alunos na escola e que fossem obedientes aos seus pais.


Jesus não seria um frequentador fiel do grande templo central da avenida principal do bairro no culto de Domingo. Não seria mais um religioso morador de Jardim Progresso. Seu púlpito seria as ruas, esquinas, escolas, mercearias, barraquinhos, quitandas, paradas do buzão e becos da comunidade. Não estaria disposto a ser um protagonista de mais uma hierarquia religiosa no bairro onde os interesses se limitam a lamentável visão de “ganhar almas”, construção, reformas de templos e disputas acirradas por adeptos para acréscimo numéricos à suas denominações. Ninguém iria encontrar Jesus assentado em uma cadeira especial no templo central, pois estaria gastando tempo e energia junto com os pobres e excluídos.  


Jesus de Nazaré nos convida para caminhar com ele em nossas comunidades. Nos chama para lutar ao lado dos excluídos, acolher a todos, se alegrar com as crianças e ouvir as pessoas. Jesus nos convida e se assentar com Ele no jardim da solidariedade, com pé no chão, e juntos construirmos um mundo melhor onde habite o amor e a justiça.



   

sábado, 15 de julho de 2017

Jesus de Nazaré: Simplicidade, Profecia e Compaixão Libertadora


Por Marcos Aurélio dos Santos

"Trouxeram a jumenta e o jumentinho, e sobre eles puseram as suas vestes, e fizeram-no assentar em cima." (Mt. 21.7).

A entrada de Jesus em Jerusalém montado em uma jumentinha emprestada foi um anúncio profético do Messias Libertador. Isto de forma simbólica. Cumpre-se a profecia de Zacarias: “Eis que teu rei vem a ti. Manso e montado numa jumenta, e num jumentinho, filhote de um animal de carga”( Zc. 9,9).  

Este evento que tem como personagem principal o Rei manso e pobre, e que foi marcado por coisas simples; A jumentinha que era o animal usado pelos pobres para viagens e serviços, típico dos camponeses, os ramos extraídos das árvores e vestes usadas como tapete nas ruas empoeiradas para a chegada do Deus pobre. O público que esperava sua entrada na cidade não eram os da elite de Jerusalém, mas em geral o povo. Um ato profético que escancara a simplicidade do Jesus de Nazaré que radicalmente denuncia a ostentação dos poderosos da Palestina.

Sua entrada como Rei e Messias libertador vai além de uma perspectiva espiritualista e reducionista. Ela tem também aponta para uma dimensão política. Sua chegada causou um grande incômodo aos poderes que dominavam a Palestina. Incômodos no mínimo desagradáveis à Roma, o centro do poder dominante que em conluio com os religiosos de Jerusalém tomaram o estado de direito sob pena de opressão ao povo.

O caminho de Jesus trouxe fé, esperança e amor para um povo oprimido. Jesus decidiu em meio à injustiça e opressão ficar ao lado dos pobres. Isso causou a ira dos poderosos e por essa razão era uma ameaça ao sistema político, religioso e econômico da época. Esse seguimento de Jesus de Nazaré não surge como um reformismo do sistema, mas um rompimento, uma quebra de paradigmas para a construção de um novo a partir do Reino de Deus. Isto custou-lhe prisão, tortura cruel romana e morte de cruz.   

É chegando o Reino de Deus. O Deus libertador! Jesus faz opção pelos pobres e traz a boa notícia. Um novo tempo de refrigério, fraternidade, partilha, compaixão e misericórdia. O Reino do servo sofredor se faz presente entre o povo, não apenas em palavras, mas na encarnação do amor de Deus demonstrados em atos compaixão. Jesus caminha com o povo como o Deus humano, que entra na história, que decide interagir na vida das pessoas. Em meio ao sofrimento e dor, traz a viva esperança e um novo tempo.


Como igreja de Jesus temos buscado viver o Jesus dos pobres? O servo sofredor que caminha entre o povo e com o povo? Temos nos posicionado contra todo tipo de opressão e ostentação instaurados nos sistemas dominantes? Que possamos buscar e viver o Jesus de Nazaré, o Deus encarnado que amou o mundo, que veio trazer as boas novas de libertação.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Um Menino Que faz Teologia na Periferia

(Foto Ilustrativa) 


Por Marcos Aurélio dos Santos 

“Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus”. (Mc.10:14).

“E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará” (Isaías 11:6).           

Entre as crianças pobres da periferia há uma diversidade de talentos. Meninos e meninas, adolescentes em potencial. Não a partir de uma ideologia da meritocracia que valoriza o individualismo, mas na própria vida comunitária em que vivem, onde se aprende com a dura experiência da vida das comunidades empobrecidas. Nossos meninos e meninas pensam, interagem em sala de aula, são criativos, alegres, compartilham, gostam de brincar, ouvir e contar histórias, falam com entusiasmo sobre de suas experiências de vida, tudo isso em meio aos desafios de morar em uma região periférica. Confesso que para nós é uma experiência de aprendizado mútuo. Os professores também são alunos. A sala de aula é a vida.

Dentre os meninos e meninas cheios de amor e vocações conheci o Thalison, um menino negro que nos ensina a fazer teologia. Apesar de nem saber bem o significado de ser teólogo ele o é. Thalison não é um teólogo profissional, de faculdade, de escrivaninha, das leituras e pesquisas, não é teórico, até porque não tem idade para ser. Ele é o nosso amado teólogo popular. Ele a faz a partir da realidade onde ele vive. Onde estuda em uma escola pública, onde mora, brinca, caminha pelas ruas enlameadas, vai ao mercadinho, à mercearia ou quando sobra algum trocado compra um dimdim na casa do vizinho.

Nosso teólogo popular fala de maneira espontânea sobre amor e justiça. Diz que na comunidade há carência de segurança, saúde, saneamento e outros problemas. Para ele, essa não é a vontade do Deus da justiça para os moradores de Jardim progresso e que as pessoas devem ter direito a essas coisas. Órfão de pai e mãe,Thalison é um menino cheio de esperança, de sonhos, virtudes que faltam muitas das vezes nos teólogos profissionais sistemáticos que lamentavelmente se detém apenas nas teorias repetitivas. Nosso “Teólogo mirim” Entende que devemos ser obedientes a Deus e fazer a sua vontade. Certa vez perguntei para ele: Thalison, para você, quem é Deus? Ele respondeu: Para mim, Deus é Compaixão, amor e misericórdia. Fiz também outra pergunta ao nosso teólogo da periferia: O que Deus quer de nós como cristãos? De uma forma simples ele respondeu: Obedecer a Ele e servir às pessoas.

Em minha caminhada com Thalison a quase três anos, tenho aprendido a diferença entre fazer teologia e construir reproduções descontextualizadas de pensadores a partir de uma mesa e um teclado de notebook. Aprendi com o pequeno teólogo popular no caminho, compartilhando com ele em sua própria experiência de vida, no seu jeito simples de menino as vezes desobediente, em sua sinceridade de criança sem malicia e sem grandes ambições de poder, em seus momentos de tristeza causados pelas dores da vida. Aprendi que para fazer teologia contextual-latino-americana se faz necessário estar entre o povo e com o povo, interagindo em ações concretas de libertação. É impossível fazê-la isolado da realidade da vida, da história, do contexto onde estamos. É preciso pé no chão.

Tentar retirar Deus da história, da vida, dos pobres e depois escrever não é fazer teologia. Levar Deus para uma esfera distante da realidade e sofrimento como também da alegria das pessoas é alienação. Para fazer teologia no caminho devemos trazer a criança pobre e negra da periferia para o centro de nossa reflexão, e, isso deve começar a partir do lugar onde estamos, lá deve ser a fonte de construção do fazer teológico. É na experiência prática que iremos até o texto bíblico onde encontramos a base para uma teologia popular, a saber, o Evangelho de Jesus de Nazaré, que deve ser o eixo de toda teologia.    
   



segunda-feira, 12 de junho de 2017

Fé, Política e Violência Urbana



 Por Marcos Aurélio dos Santos

Em uma conversa com moradores da comunidade de Jardim Progresso, periferia na Zona Norte de Natal, debrucei meus ouvidos a uma narrativa do estado de violência em nossa comunidade. Dona Socorro, trabalhadora doméstica que sai para o trabalho às 4.30HS da madrugada, em ônibus lotado (pega quatro para ir e vir), nesse dia chegou atrasada no trabalho, caso raro pois é pontual em seus compromissos. A razão do atraso foi que teve que voltar correndo e aterrorizada quando caminhava para a parada de ônibus pois havia dois homens armados com pistola a espera de uma vítima para execução. O Bairro de Nossa Sra da Apresentação, onde está situada a comunidade de Jardim Progresso, está na triste estatística como o bairro mais violento de Natal. Logo me veio uma preocupação com esta cena pois eles estavam na esquina bem próximo ao Espaço Comunitário que está situado em uma área marcada por histórias de violência, assaltos à mão armada, furtos, estupros e morte. Vítimas que em sua maioria são pobres e negros.

Duas pesquisas têm grandes relevância nessa questão da violência na comunidade de Jardim Progresso. De acordo com o atlas da violência 2017, a cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras. Em concordância com essa realidade, o IPEA revela uma triste realidade em nosso contexto potiguar. Entre 2005 e 2015 houve um crescimento acentuado de 331,8% de mortes entre pobres e negros no Rio Grande do Norte. Podemos concluir que dos mais de 1000 assassinatos ocorridos em nosso estado nesse período de cinco meses, em sua grande maioria são Jovens pobres e negros da periferia. O estado tem a missão de promover políticas públicas para que haja uma redução desses números absurdos. Contudo na história até agora não o fez. Violência e morte só crescem no estado.  


Na perspectiva da fé cristã evangélica, há um elemento de grande relevância diante deste contexto: A Fé Política! Uma fé cristã que que não se limita a uma perspectiva reducionista, que só enxerga o céu em detrimento do chão da vida, da história, da igualdade, da justiça aqui e agora. Precisamos de uma fé politizada como resposta a essa realidade. Uma fé que não é forjada em uma doutrinação sistemática submetida a um dogma ou teoria. Esta fé é viva, está na vida, no contexto onde estamos e faz interação com o mundo e seus desafios sócio-políticos.


Lembro-me de uma cena em uma de nossas oficinas no Espaço Comunitário que deixou alguns dos Irmãos e irmãs perplexos. Em uma das aulas pela manhã veio ao meu encontro o aluno Gabriel, menino negro e pobre e tem seis anos de idade. Se aproxima com um brinquedo de montar. Ele montou uma metralhadora e chega correndo e gritando: “Mão na cabeça! Mão na cabeça! Deita... Deita... Logo perguntei: ” Gabriel, onde você viu esta cena? Ele respondeu: “ Foi com meu Pai!!! Ele foi preso e está na penitenciária! Alguns irmãos e irmãs presenciaram este testemunho de Gabriel.


A realidade do aluno Gabriel é também a de muitos outros que encontramos na caminhada pela periferia. Ele tem cinco Irmãos pequenos entre 2 e 10 anos, vivem em um contexto de pobreza e violência onde nos desafia a buscar respostas concretas para o sofrimento deles, sem assistencialismo. Esta realidade tem nos desafiado a refletir e chegar a uma conclusão: Não basta apenas dar pão, se faz necessário perguntar por que há tanta miséria que gera violência e morte em nossa comunidade, enquanto há uma minoria abastarda nos lugares altos de nossa grande Natal. Certamente esta resposta não está em uma visão teológica-espiritualista do pecado pessoal ou em movimentos de manifestações sobrenaturais com base no espiritualismo ou ainda eventos de mídia. A questão vai mais adiante. É preciso um combate ao mal que está instalado nas estruturas de poder de opressão. Esta é uma questão que requer de nós cristãos engajamento político, voz profética, no caminho, a partir da Galileia de hoje, as periferias onde se encontram os problemas sociais em externo na sociedade. Denunciar a opressão, a pobreza, a violência entre os negros, lutar por uma sociedade igualitária, na partilha do bem comum, denunciar todo tipo de centralização de poder, quer no sistema político, religioso, social e econômico. Busquemos o reino de Deus onde habita o amor libertário.