segunda-feira, 12 de junho de 2017

Fé, Política e Violência Urbana



 Por Marcos Aurélio dos Santos

Em uma conversa com moradores da comunidade de Jardim Progresso, periferia na Zona Norte de Natal, debrucei meus ouvidos a uma narrativa do estado de violência em nossa comunidade. Dona Socorro, trabalhadora doméstica que sai para o trabalho às 4.30HS da madrugada, em ônibus lotado (pega quatro para ir e vir), nesse dia chegou atrasada no trabalho, caso raro pois é pontual em seus compromissos. A razão do atraso foi que teve que voltar correndo e aterrorizada quando caminhava para a parada de ônibus pois havia dois homens armados com pistola a espera de uma vítima para execução. O Bairro de Nossa Sra da Apresentação, onde está situada a comunidade de Jardim Progresso, está na triste estatística como o bairro mais violento de Natal. Logo me veio uma preocupação com esta cena pois eles estavam na esquina bem próximo ao Espaço Comunitário que está situado em uma área marcada por histórias de violência, assaltos à mão armada, furtos, estupros e morte. Vítimas que em sua maioria são pobres e negros.

Duas pesquisas têm grandes relevância nessa questão da violência na comunidade de Jardim Progresso. De acordo com o atlas da violência 2017, a cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras. Em concordância com essa realidade, o IPEA revela uma triste realidade em nosso contexto potiguar. Entre 2005 e 2015 houve um crescimento acentuado de 331,8% de mortes entre pobres e negros no Rio Grande do Norte. Podemos concluir que dos mais de 1000 assassinatos ocorridos em nosso estado nesse período de cinco meses, em sua grande maioria são Jovens pobres e negros da periferia. O estado tem a missão de promover políticas públicas para que haja uma redução desses números absurdos. Contudo na história até agora não o fez. Violência e morte só crescem no estado.  


Na perspectiva da fé cristã evangélica, há um elemento de grande relevância diante deste contexto: A Fé Política! Uma fé cristã que que não se limita a uma perspectiva reducionista, que só enxerga o céu em detrimento do chão da vida, da história, da igualdade, da justiça aqui e agora. Precisamos de uma fé politizada como resposta a essa realidade. Uma fé que não é forjada em uma doutrinação sistemática submetida a um dogma ou teoria. Esta fé é viva, está na vida, no contexto onde estamos e faz interação com o mundo e seus desafios sócio-políticos.


Lembro-me de uma cena em uma de nossas oficinas no Espaço Comunitário que deixou alguns dos Irmãos e irmãs perplexos. Em uma das aulas pela manhã veio ao meu encontro o aluno Gabriel, menino negro e pobre e tem seis anos de idade. Se aproxima com um brinquedo de montar. Ele montou uma metralhadora e chega correndo e gritando: “Mão na cabeça! Mão na cabeça! Deita... Deita... Logo perguntei: ” Gabriel, onde você viu esta cena? Ele respondeu: “ Foi com meu Pai!!! Ele foi preso e está na penitenciária! Alguns irmãos e irmãs presenciaram este testemunho de Gabriel.


A realidade do aluno Gabriel é também a de muitos outros que encontramos na caminhada pela periferia. Ele tem cinco Irmãos pequenos entre 2 e 10 anos, vivem em um contexto de pobreza e violência onde nos desafia a buscar respostas concretas para o sofrimento deles, sem assistencialismo. Esta realidade tem nos desafiado a refletir e chegar a uma conclusão: Não basta apenas dar pão, se faz necessário perguntar por que há tanta miséria que gera violência e morte em nossa comunidade, enquanto há uma minoria abastarda nos lugares altos de nossa grande Natal. Certamente esta resposta não está em uma visão teológica-espiritualista do pecado pessoal ou em movimentos de manifestações sobrenaturais com base no espiritualismo ou ainda eventos de mídia. A questão vai mais adiante. É preciso um combate ao mal que está instalado nas estruturas de poder de opressão. Esta é uma questão que requer de nós cristãos engajamento político, voz profética, no caminho, a partir da Galileia de hoje, as periferias onde se encontram os problemas sociais em externo na sociedade. Denunciar a opressão, a pobreza, a violência entre os negros, lutar por uma sociedade igualitária, na partilha do bem comum, denunciar todo tipo de centralização de poder, quer no sistema político, religioso, social e econômico. Busquemos o reino de Deus onde habita o amor libertário.  









         

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Jesus de Nazaré: Compaixão e Partilha na Vida Comunitária



 Por Marcos Aurélio dos Santos.

Naqueles dias, outra vez reuniu-se uma grande multidão. Visto que não tinham nada para comer, Jesus chamou os seus discípulos e disse-lhes: “Tenho compaixão desta multidão; já faz três dias que eles estão comigo e nada têm para comer. Se eu os mandar para casa com fome, vão desfalecer no caminho, porque alguns deles vieram de longe". Os seus discípulos responderam: "Onde, neste lugar deserto, poderia alguém conseguir pão suficiente para alimentá-los? "


"Quantos pães vocês têm? ", perguntou Jesus. "Sete", responderam eles. Ele ordenou à multidão que se assentasse no chão. Depois de tomar os sete pães e dar graças, partiu-os e os entregou aos seus discípulos, para que os servissem à multidão; e eles o fizeram.

Tinham também alguns peixes pequenos; ele deu graças igualmente por eles e disse aos discípulos que os distribuíssem. O povo comeu até se fartar. E ajuntaram sete cestos cheios de pedaços que sobraram. Cerca de quatro mil homens estavam presentes. E, tendo-os despedido, entrou no barco com seus discípulos e foi para a região de Dalmanuta (Mc 8.1-10).


Não há comida, o lugar é deserto e há uma grande multidão cansada que está a perecer pelo caminho. Uma situação emergencial onde Jesus desafia os seus discípulos a prática do bem comunitário. Foram incomodados por Jesus a priorizar o povo cansado e faminto em detrimento de saciar a sua própria fome. Os discípulos receberam a missão de servir primeiro a multidão. (Mc.8.6). Foram os últimos a comer! Um senso comum de justiça que Jesus ensinou aos discípulos. “Melhor que falte a nós do que ao nosso próximo. Um senso com base no amor. ” E esse amor é praticado pelos alunos do Cristo mais adiante na Igreja do primeiro século (At. 2. 42-46).


O ensino de Jesus sobre a partilha comunitária gerou um resultado extraordinário. A partilha dos pães e dos peixes saciou a fome de todos ao ponto de sobrar (Mc.8.8). O poder do amor vence o individualismo que é contrário a toda a ação comunitária. Os discípulos de Jesus aprenderam na prática o novo mandamento: “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo” (Lc10. 27).


Mas o que levou Jesus a essa inquietação com a falta de comida para alimentar uma multidão faminta? Certamente não era a autopromoção para gerar populismo, ou para satisfazer aos anseios de uma classe dominante e opressora que se gloriava em dar esmolas. Não! O que motivou Jesus a partilhar pão e peixe com o povo foi a compaixão (Mc.8.2). Jesus percebeu de perto, bem próximo pois estava com eles, no mesmo caminho deserto em meio ao sol, dormindo com eles e sentindo o frio da noite de três dias de caminhada. Não como observador do sofrimento do povo, mas encarnando o amor do pai entre os pobres, entre os que desfaleciam em busca de libertação. A compaixão era o eixo que movia a missão comunitária de Jesus de Nazaré.


Hoje vivemos em uma economia globalizada, sob domínio de um sistema neoliberal. Apesar de sermos um continente abastardo em riquezas naturais, a américa latina é o continente onde há o maior índice de desigualdade social. Há milhões de pobres e famintos. A mensagem de Jesus não é restrita apenas para um seguimento religioso exclusivo, o Evangelho é a boa nova para um mundo que Jesus amou e que sofre os males da injustiça de um sistema opressor que tem gerado desigualdade. Uma minoria rica dominadora que esmaga o pobre. O Evangelho de Jesus desafia o mundo ao arrependimento, ao desafio de ser uma comunidade comunitária onde possa haver de fato um Estado Democrático de Direito.   



     


sábado, 22 de abril de 2017

Nosso Jesus Libertador




 Por Marcos Aurélio dos Santos.

Jesus era pobre. Viveu da sua infância à idade adulta em uma periferia da Região da Galileia chamada Nazaré. Nada acumulou, nada ostentou. De vida simples, amou em serviço entre os pobres, uma jumentinha emprestada foi a glória sem pompa de sua chegada à Jerusalém. A partir dos lugares periféricos denunciou com autoridade o abuso de poder, usurpação e opressão do sistema político-religioso-neoliberal de sua época, o que lhe rendeu prisão e execução como preso político subversivo.


Sua opção pelos pobres foi uma maneira radical de denúncia contra a injustiça aos mais fracos, juntou-se a eles em um movimento libertador, foi condenado não porque era um malfeitor, mas porque desobedeceu aos poderes dominantes de uma classe burguesa denunciando a maldade instalada nas estruturas político­-religosa de seu tempo. Jesus amou o seu povo, amou até o fim. Esse amor o levou a morte de cruz. Não morreu apenas por alguns, mas pelo mundo inteiro.


Sua missão não está reduzida apenas a "salvação de Almas", seu amor tem dimensões bem mais alargadas e profundas. Sua morte e ressurreição faz surgir um novo tempo, uma nova era de amor, libertação, misericórdia e justiça para o mundo. Veio para cumprir sua missão de servo sofredor e humilde, o Deus pobre que reina entre os pobres.


É ilusão pensar em um Jesus rico, dono do ouro e da prata que distribui prosperidade, é impensável ter um encontro com um Jesus dos milionários e acumuladores de bens, esse Jesus não é encontrado nos Evangelhos. Contudo pode ser encontrado nos corações e mentes dos incrédulos e avarentos. Arrependei-vos. O Jesus da bíblia é comunitário.


É preciso crer que a utopia está viva. Fé, amor e esperança não morrem facilmente, estas são eternas. Crer na encarnação da justiça, na igualdade, na compaixão, no serviço ao outro, na vida, na possibilidade de uma igreja para os pobres, uma igreja simples e serva, que imite em sua maneira de viver o Jesus de Nazaré.