sábado, 15 de outubro de 2016

Missão Integral: É Hora da Autocrítica

Por Marcos Aurélio dos Santos

A missão integral sem sombra de dúvidas é um movimento que tem desafiado a igreja evangélica a repensar sua identidade e missão nas últimas décadas no contexto evangélico da América Latina. Devemos reconhecer que ela quebrou alguns dos velhos paradigmas que por sua vez tem apontado alguns caminhos relevantes para a missão da igreja. Um movimento que desafia a igreja a rever seus conceitos sobre justiça, missão, espiritualidade e liderança. Deus seja louvado por isso. 

Contudo é hora de repensar, sair das reflexões, emoções, discursos e avançar. Basta de romantismo. A missão integral necessita urgentemente de uma autocrítica, principalmente sobre as implicações de sua práxis. Devemos reconhecer que neste aspecto temos caminhado a passos lentos e com propostas com traços de assistencialismo. Nos faltam propostas concretas de transformação. O máximo que conseguimos fazer com muito esforço é um aprimoramento do assistencialismo histórico que tem marcado a ação social da igreja. Para muitos que se dizem fazer missão integral, mesmo sem saber bem o que é, evangelismo e ação social tem um significado de missão em sua integralidade. Uma visão dicotômica e reducionista herdada das teologias tradicionais.  

As dicotomias, reducionismos e uma forte ênfase na apologética estão impedindo que a igreja avance com uma prática mais sustentável e propostas concretas de transformação do mundo pelo poder do Evangelho. Temas como política, economia, ecumenismo, raça, homofobia, terra, fome, imigração e outros assuntos atuais que dizem respeito às injustiças no mundo ainda não estão em pauta e muito menos na prática da grande parte dos movimentos nas igrejas locais que trabalham com MI. 

O teólogo espanhol Juan José Tamayo, no Ultimo CLADE V ( Congresso Latino-Americano de Evangelização) ocorrido em San José, Costa Rica, de 9 a 13 de Julho de 2012 falou sobre os dez desafios da Missão Integral no futuro. 

Vejamos: 


1) Responder à pobreza estrutural e aos movimentos de luta contra a pobreza. Desse desafio surgirá uma igreja solidária, uma igreja da libertação integral, uma igreja dos pobres.


2) Responder à globalização neoliberal excludente e à altergloblalização inclusiva. A alterglobalização é um movimento que se opõe aos efeitos negativos da globalização econômica. Desse desafio surge uma igreja contra-hegemônica, um igreja contraimperial.

3) Responder ao patriarcado e ao feminismo, como alternativa. Segundo ele, a igreja ainda é patriarcal na organização, na doutrina, na moral e na linguagem. Logo, o feminismo aparece como uma filosofia de igualdade e um movimento social de libertação das mulheres. Desse desafio surgirá uma igreja comunitária e fraterna, onde a mulher também seja sujeito.

4) Responder à destruição do meio ambiente e à consciência ecológica. Desse desafio surgirá uma igreja que não seja uma organização antropocêntrica, mas uma comunidade ecológica, comunidade que defenda os direitos da natureza.

5) Responder ao neocolonialismo e à descolonização das igrejas. Desse desafio surgirá uma igreja autóctone, uma igreja latino-americana.

6) Responder à uniformidade cultural e à interculturalidade. Desse desafio surgirá uma igreja universal, uma igreja intercultural.

7) Responder ao fundamentalismo, instalado nas cúpulas, e ao diálogo inter-religioso e social. Desse desafio surgirá uma igreja em diálogo ecumênico, inter-religioso e social.

8) Responder ao dogmatismo e à afirmação da ética. O dogma não pode sobrepor-se ao Evangelho e as "verdades eternas" não podem se sobrepor à ética. Desse desafio surgirá uma igreja que recupere os símbolos, porque, como diz Paul Ricoeur, o símbolo dá que pensar; uma igreja que recupere a ética como teologia primeira, assim como Emmanuel Lévinas afirmava a ética como filosofia primeira.

9) Responder à uniformidade e fragmentação, e ao pluralismo eclesiástico. Desse desafio surgirá um igreja plural, sem fragmentação, sem exclusão, sem excomunhão, sem inquisidores e sem hereges.

10) Responder às investigações científicas e à condenação da ciência. Desse desafio surgirá uma igreja em diálogo com a ciência e uma igreja que critique os abusos da ciência. (Resumo feito por Luiz Felipe Xavier em 02/08/2012).

Estas observações feitas por Juan José foram discutidas a quatro anos atrás. São desafios que chamam a igreja para uma prática da missão integral que tenha como objetivo concreto, traspor o assistencialismo histórico e levar a igreja na América Latina a um envolvimento com questões atuais de nosso tempo em dimensões mais profundas de amor e justiça. Uma resposta aos diversos problemas que afligem a humanidade. Para que a igreja cumpra sua missão de sal da terra e luz do mundo, faz-se necessário e urgente atentar para esses desafios. Menos teologia e mais prática.      

Um fato merece nossa atenção e bom senso. Ainda somos profundamente influenciados pelas teologias importadas do Norte e da Europa, ainda que muitos não concordem com essa afirmação. Não estamos construindo uma teologia a partir do contexto, da caminhada com o pobre em comunidade, ouvindo a pessoas e construindo parcerias de amor com as mesmas. Em vez disso, estamos começando pelas grandes estruturas, nas grandes lideranças eclesiais via clero. A via está errada. Estamos levando pacotes prontos de assistências às pessoas sem ao menos perguntar se elas de fato querem tal ajuda. Há necessidade de libertação e diálogo aberto com outros seguimentos que começaram a luta pela manifestação da justiça de Deus no mundo antes de nós. Achamos que somos o dono do pedaço.  

A fragmentação na MI também tem contribuído para o entrave. Por falta de leitura responsável, pesquisa e conhecimento da história, muitos tem feito confusão quanto a definição do termo. Cada um quer a “sua missão integral”. Um campo de batalha está formado. Estamos mais preocupados em defender nosso ponto de vista em detrimento do serviço de amor. Precisamos aprender com quem está fazendo mais e melhor do que nós. Essa verdade não é uma teoria mais um fato notório. É urgente avançar. É preciso construir novos diálogos ecumênicos, quebrar preconceitos e se unir em amor fraterno. O isolamento religioso é um mal que nos acompanha a séculos. Reino dividido não caminha junto, não ama e não faz.

A ignorância leva aos piores extremos e falta de base na argumentação. Em meio à confusão de definições criaram-se sinônimos equivocados para a MI. Comunismo, versão evangélica da teologia da libertação, doutrina do demônio, junção entre espiritual-material, evangelismo e ação social e outros. Infelizmente somos leitores de orelhas de livros. A MI está se tornando um campo de luta espiritual e ringue de disputas apologéticas. Uma grande perda para a igreja pois a própria história da igreja cristã em seus concílios criados para exterminar os hereges demonstra o prejuízo. Perde-se tempo em defender as teses enquanto o mal avança no mundo. Estamos muito preocupados em teologizar para defender a “nossa MI preferida” em detrimento da luta pela justiça do Reino.  

Ainda que em alguns poucos seguimentos ou grupos se dispuseram a uma abertura de diálogo, estamos muito isolados. Não temos disposição nem iniciativa para um diálogo ecumênico (questão bastante abordada de forma clara nos escritos dos precursores da MI). Estamos escravos do preconceito e do individualismo. Novamente estamos carentes de libertação. É preciso dialogar com quem está fazendo melhor. A TdL, movimentos sociais e outros movimentos que buscam a justiça tem muito a nos dizer, principalmente sobre a prática. Nos falta bom senso e humildade. É preciso discutir sobre tudo que diz respeito ao mundo pois tudo diz respeito ao evangelho, o que afeta o homem e o que ao homem afeta. Podemos dizer aqui, que nenhum de nós pode dizer que faz missão integral em sua verdadeira integra. Ainda há muita parcialidade, pois, o termo integral implica em uma abrangência profunda e desafiadora para nós.

O sério perigo que permeia sobre a MI, é tornar-se mais uma teologia sistematizada de curso teológico em seminários para atender as demandas do sistema religioso-evangélico já implantado, ou uma teologia de crescimento de igreja. Poderá ficar apenas no campo da reflexão teológica se não fazer uma autocrítica, buscando a quebra de velhos paradigmas que tem travado a missão da igreja no mundo. Devemos também tomar a iniciativa de reconhecer nossas limitações e aprender com outros seguimentos fora dos arraiais evangélicos tradicionais. Ir ao encontro do pobre e fazer teologia a partir da realidade de injustiça que os cerca. É preciso contextualização e encarnação de fato e de verdade e não apenas teoria. É relevante desligar o notebook, descer dos púlpitos, fechar a porta do escritório, sair de traz da escrivaninha e colocar o pé na poeira, ocupar as ruas, becos, favelas e amar. É tempo de repensar a MI, de fazer autocrítica, de quebrar paradigmas. É tempo de amar, pois amar é fazer.  



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A Liberdade de Pensar Para uma Construção de Novos Paradigmas


Por Marcos Aurélio dos Santos 

Houve tempos sombrios na história da igreja cristã em que não era permitido pensar. Tempos em que os cristãos leigos de pequenas comunidades não tinham acesso à leitura e interpretação da mesma, aliás, não lhes eram permitidos si quer aprender a ler e a escrever. Para o poderoso clero, o conhecimento estava condicionado apenas aos mais abastados e cultos. Para eles, ser ignorante quanto ao saber, era algo que deveria fazer parte de forma definitiva da cultura dos pobres. Mantê-los longe dos estudos do saber e da Bíblia, era conveniente para uma classe dominadora e opressora. A ideia era: Deixemos o povo permanecer como leigos quanto as questões da vida e teremos eles sempre sob nosso domínio!

Os leigos em geral eram compostos por pequenos agricultores, carpinteiros, pescadores, pequenos comerciantes informais, escravos e etc. Estes eram submetidos a uma educação manipuladora do clero. O que era exposto nos sermões e leituras nos cultos, estava restrita apenas a questões espiritualistas e regras de obediência ao sistema clerical. O povo não era ensinado sobre as questões da vida, como cultura, saúde, economia, direitos e outros assuntos pertinentes à vida humana. Tempos de alienação, dominação e restrição do saber. Havia por parte do alto clero a intenção de alienar o povo para privá-los de poderem cobrar os seus direitos como cidadãos e também mantê-los obedientes ás normas da igreja. Toda teologia estava centrada em uma espiritualização alienista. Ou seja: Aos leigos só bastava saber o que fazer para ir para o céu. Anos depois com a reforma nos países da Europa surgiu o aparecimento de escolas para o povo e traduções da Bíblia para as línguas de cada país, como no caso da Inglaterra e Alemanha. Mais tarde no século XVII, surge o iluminismo na França que logo se torna global e que trouxe uma importante contribuição para a libertação do pensar. 

Entretanto, muitos séculos se passaram, e apesar dos avanços, a liderança da igreja evangélica de hoje, em vários seguimentos demonstra grande disposição em proibir o livre pensar. Permeia entre nós o que podemos chamar de "doutrinação evangélica". Significa dizer que essa postura se fundamenta em: “Um processo de incutir ideias, atitudes, estratégias cognitivas ou uma metodologia profissional. Muitas vezes, é distinta da educação pelo fato de que se espera que a pessoa doutrinada não questione ou analise criticamente a doutrina que está sendo ensinada”. (Wikipédia). Essa doutrinação que influencia o ensino nas escolas brasileiras, é o mesmo aplicado nas igrejas para proibir o livre pensar dos membros da comunidade. Não é permitido questionar, dar sugestões de mudanças às bases de fé de uma denominação. Não seria esta falta de diálogo respeitoso, esta centralização do saber teológico, essa imposição das doutrinas em nossas igrejas umas das principais causas de tanta divisão, e que tem causado rachas e surgimentos de milhares de denominações? São milhares de milhares de denominações pelo Brasil a fora. Segundo uma pesquisa recente da Sepal, há uma projeção de crescimento para 2020 de 575 mil igrejas Evangélicas no Brasil.

Essa dominação do saber nas igrejas evangélicas brasileiras tem suas bases em duas teologias. A do Norte nos EUA e da Europa. Nossas igrejas foram profundamente influenciadas por estas duas teologias, via seminários e missionários americanos com ênfase no fundamentalismo. De fato, por muitos séculos foram predominantes no meio evangélico e ainda são. Durante vários séculos não se construiu uma teologia reflexiva, contextual e dialogal. Tudo foi sistematizado obedecendo os dogmas da teologia sistemática já bem conhecida em nossos seminários e institutos bíblicos. Assim, a maior parte das igrejas foram forjadas em uma teologia engessada, pronta, enlatada sem nenhuma possibilidade de abertura para diálogos com outras teologias. Disciplinar ou até mesmo em alguns casos excluir, foi e ainda é uma das artimanhas do fundamentalismo que fechou a igreja para o diálogo e que por sua vez travou o avanço de sua missão no mundo.

Em reação a este contexto de uma teologia dominante e uma necessidade de encarnação do evangelho de Jesus de Nazaré, surgiu nas últimas décadas pensadores de teologias progressistas. Estes começam a refletir e a construir uma nova teologia a partir do contexto, com abertura para novos diálogos com outras teologias, ciências e outros seguimentos do saber. Destas podemos citar: Teologia negra, teologia da libertação, teologia da missão integral, teologia feminista, teologia liberal e teologia contextual. Teólogos e teólogas de linha progressista deram um grande passo para a contribuição do livre pensar nas igrejas evangélicas, especialmente na América Latina. Teologias dessa natureza têm algo em comum. Pretendem por meio de uma nova reflexão e quebra de paradigmas, levar a igreja e repensar sua teologia e levar o povo de Deus e uma Práxis do Evangelho, refletir criticamente nossa vida como cristãos e nosso compromisso com o mundo e seus desafios e chamar a igreja ao arrependimento. Então, tem sido feita uma autocrítica que busca repensar os conceitos de liderança, missão da igreja, espiritualidade, ética cristã e outros temas relevantes para a igreja de nosso tempo.   

A Bíblia foi um livro escrito para o mundo, não para um grupo de religiosos ou à uma determinada denominação. Por esta razão é preciso abrir-se para o diálogo respeitoso e com senso crítico. Devemos perceber que todas a questões que estão no mundo como sociedade e criação nas suas múltiplas dimensões diz respeito ao Evangelho, e em hipótese alguma podem ser vistas de forma dicotômica, parcial ou reducionista. A visão deve ser integral. Uma doutrinação que impede um novo diálogo, a livre opinião e a diversidade de pensamentos não condiz com a proposta do Evangelho, pois o mesmo é poder libertador. Jesus ouvia com carinho e atenção os seus discípulos e outros que encontrou em sua peregrinação, questionava e permitia ser questionado, dialogava com todos, até com mulheres Samaritanas, algo paradigmático para sua época. Jesus era livre. Ouvir outras teologias, dialogar com diversos seguimentos da religião e das diversas ciências humanas se faz necessário e urgente para que o Reino de Deus se manifeste de forma mais abrangente, para que a glória de Deus seja vista em toda a terra.  

BIBLIOGRAFIA:

­­­COMBIM, José. O Caminho: Ensaio sobre o Seguimento de Jesus. São Paulo: Ed. Paulus, 2004, 226pp.

KOHL, Manfred Waldemar, BARRO, Antônio Carlos (Organizadores). Ministério Pastoral Transformador. Londrina: Ed. Descoberta, 2006, 277pp.

STEUERNAGEL, Valdir, SOUZA, Ricardo Barbosa (Organizadores). Nova Liderança. Paradigmas de Liderança em Tempos de Crise. Curitiba: Ed. Encontro, 2002, 202pp.

PADILLA, C. René. Missão Integral: O Reino de Deus e a Igreja. Viçosa: Ed. Ultimato, 2012. 217pp.

COMBLIM José. Cristãos Rumo ao Século XXI: nova caminhada de libertação. São Paulo: Ed Paulus, 1996, 373pp.

COMBIM, José. Jesus de Nazaré. São Paulo: Ed Paulus, 2010, 116pp.  







sábado, 10 de setembro de 2016

O Amor em ação



Por Marcos Aurélio dos Santos

Muito se tem falado sobre o amor em nossas igrejas. Nosso texto preferido na leitura bíblica é 1 Coríntios 13, onde Paulo escrevendo aos corintianos fala sobre sua excelência. O amor é falado também nas frases de nossas orações, nos cultos, nos círculos de oração, na pregação de domingo, na escola bíblica e em diversas frases das músicas cantadas. De forma exaustiva falamos muito sobre o amor. Também em rodas de conversa entre irmãos, no evangelismo quando dizemos para alguém, Jesus te ama ou para o nosso irmão, eu te amo.

Lembro-me dos tempos de evangelização em uma comunidade pobre do interior em que nos estudos bíblicos o meu pastor dizia a seguinte frase: “Tudo que fizermos na obra de Deus façamos com amor”. Em termos práticos o ensino era que o amor deveria ser o arbitro em todas as ações da igreja naquela localidade. A pregação, o estudo, a evangelização, o serviço, a contribuição financeira, a oração, a direção do culto. Toadas as práticas em sua maioria internas da igreja deveriam ser baseadas no amor. Bons tempos.  Alguns aprenderam a lição, outros não.

O amor jamais pode ser teórico ou mesmo um romantismo, ele deve ser encarnado. Amar é fazer. O amor cristão não consiste em palavras, sentimentos ou doutrina, mas em atos de compaixão na prática. Não se pode escrever um livro ou elaborar um curso sobre uma teoria cujo o tema seria: “dez passos para amar”. Seria no mínimo patético pois o amor não está condicionado a uma sistematização teórica, a dogmas ou doutrinas com regras estabelecidas. Amar é simplesmente demonstrar na vida o Jesus de Nazaré, fazendo pelo outro em renúncia a si mesmo. O amor deve estar nas entranhas do discípulo e certamente não será encontrado nos livros de teologia.

Devemos amar verdadeiramente e não somente com belas palavras para impressionar. Podemos usar nossas técnicas de retórica para proferir palavras bonitas sobre o amor, elaborar belos sermões e agradar a membresia, contudo se esse amor não se concretizar na vida, na prática em serviço ao próximo, todo discurso é vão. Será como lançar palavras ao ar, desperdiçadas, sem nenhum proveito para uma ação concreta de libertação.

A igreja precisa aprender a amar. Muito tem se falado sobre o cuidado com os pobres, viúvas, órfãos e estrangeiros, mas na prática isto não está acontecendo. Deve haver uma libertação do egoísmo para que o amor encontre lugar para agir. A igreja se tornou capitalista e para ela a prioridade é o consumo dos produtos oferecidos nas prateleiras da religião. O bem-estar próprio motivado pelo consumo é a urgência de uma igreja egoísta.

Pode-se investir em reforma do templo, estacionamento amplo, ar condicionado, novas poltronas, serviço de som de última geração, vitrines, e outros supérfluos de consumo em nome do deus mercado influenciado pelo neoliberalismo. Isso tudo em detrimento do sofrimento dos pobres e marginalizados, dos famintos, dos sem lugar para morar, das crianças em situação de risco. Um ambiente onde o amor está apenas nas palavras e predomina o individualismo, este não é digno de Jesus de Nazaré.

Outro problema na igreja é que não se pode amar apenas os do nosso grupo. Deus amou o mundo e chama a sua igreja para amar também. Este isolamento dos chamados “incrédulos” reflete o quanto este amor tem máscaras e não condiz com o amor verdadeiro de Deus. Nos separamos do mundo no qual Cristo morreu por ele. No mínimo contraditório. Por esta razão a igreja está distante da realidade das periferias, onde estão os mais pobres. De fato, algumas delas estão presentes nas comunidades periféricas e rurais, mas ao mesmo tempo não, ao passo que as igrejas (pessoas) não estão indo ao encontro dos que sofrem. O amar (se de fato há), limitou-se a esfera eclesiástica sem alcançar a dimensão da missão da igreja no mundo. A igreja hoje procura amar os que se identificam com suas ideias e práticas religiosas, os da sua classe social, deixando de lado os diferentes.

Jesus amou o mundo e deu sua vida por ele. Ele amou fazendo. A vida de Jesus não foi marcada por belos sermões ou boa frequência na sinagoga, sua vida foi de serviço ao outro, em especial aos mais pobres da Galileia. Dos que ele se aproximou, em sua maioria eram excluídos e marginalizados. Denunciou a injustiça, anunciou as boas novas e acolheu os esquecidos. Para Jesus, amar deveria ir além das palavras, o amor deveria se manifestar em prática. Por esta razão a justiça de Jesus excedia a dos fariseus que havia contradição entre o discurso e o fazer.

A vida de Jesus teve como marca o amar sem mascaras. Amou até os inimigos. Não amou falsamente para se promover, simplesmente amou por amor ao outro. Sua intenção era a promoção dos miseráveis e não de si mesmo. Como é bom aprender com a vida Jesus. Aí permeia o perigo da ausência do amor. Podemos fazer algo pelo outro para autopromoção, para manter os pobres dependentes de nós, para torná-los mais miseráveis do que são.

Infelizmente a igreja em sua história aprendeu a ser assistencialista onde dificilmente percebe-se o amar. Por décadas a igreja evangélica se prestou a dar esmolas ou as sobras para os pobres para se promover a suas custas. Nunca se deu conta do absurdo. Dá a sopa, o pão e a cesta básica mas faz questão que a outra mão veja, ou seja, precisa ser noticiado para demostrar espiritualidade. Neste caso, percebe-se que é possível fazer sem amar privando os mais pobres de encontrar dignidade e respeito.

Mas como a igreja vencerá o egoísmo? Uma coisa somente podemos fazer. Arrepender-se para encarnar o amor. Libertação! Livrar-se do eu, do individualismo predominante e voltar a ser comunitária. Olhar para o pobre como Jesus olhou e amar em ação. O amor precede o fazer, por isso não devemos mover um dedo para servir ao outro se não for por amor. Olhar nos olhos do pobre e perceber o seu sofrimento, os olhos dizem muito. Assumir um compromisso com as pessoas que Deus nos confiou, aprender a caminhar com pessoas diferentes de nós.  

Amar é fazer, amar é doar-se sem esperar retribuição . 
      

  

domingo, 21 de agosto de 2016

A Rio 2016: As Olimpíadas dos Excluídos



Por Marcos Aurélio dos Santos

Muitos brasileiros e estrangeiros ficaram perplexos com a magnitude da abertura das olimpíadas. Um show de cores, um espetáculo que atraiu milhares de pessoas dos quatro cantos do mundo. É uma festa mundial. Nossos atletas se preparam para as provas, cheios de orgulho e vontade de vencer, o que é louvável. Muito treino e dedicação motivados pela busca de uma medalha ainda que com pouco incentivo e investimento do estado. Um forte aparelhamento de segurança bem articulado, uma cena pouco vista nas ruas do Rio de Janeiro. Então, muitos dos participantes e organizadores ousam dizer: “Está tudo perfeito! Tenho orgulho do meu País! ”. “Essa Olimpíada vai ficar na história”! Será mesmo?


A tocha olímpica também teve grande destaque. Percorreu o país, ainda que em meio a muitos protestos e até prisões de alguns que ousaram de forma corajosa apagá-la sem sucesso. A segurança em torno da tocha reprimiu com rigor os “malfeitores”. Uma tocha que percorreu o Brasil teve mais cuidado e atenção do que um maratonista ou um boxeador que com muito esforço e treinamento intenso busca representar com ética e amor o seu país. A tocha vale mais do que o atleta!


A Rio 2016 é um jogo para as elites. Neste evento olímpico não há espaço para os excluídos. Podemos dizer que a olimpíada realizada no Brasil são os jogos dos esquecidos e sem voz. Um ingresso para assistir uma final do futebol masculino custa em média 6.000.00 Reais, uma camiseta simples do vôlei custa 200.00$. É um evento para satisfazer o consumo alienado da burguesia capitalista. O custo atualizado da Rio 2016 é de 38,26 Bilhões. Um gasto exorbitante para satisfazer uma minoria em detrimento de milhões de esquecidos.


Em meio ao grande espetáculo mundial e um gasto absurdo urge uma denúncia. Justiça! Faço minhas as palavras do Rio de Paz, (uma ONG liderada pelo pastor Antônio Carlos Costa), qual o legado para o pobre? E assim acrescento com outras perguntas: Porque bem perto dos jogos olímpicos barracos são incendiados nas favelas, crianças continuam sendo assassinadas, outras brincam às margens de rios poluídos cheios de lixo,outras são vítimas de bala perdida, adolescentes são estupradas e mortas, mulheres e homossexuais são violentados brutalmente, Porque? Qual o legado?


Certamente não haverá medalhas para os excluídos a não ser o choro da lamentação em meio a dor. Isto porque os pobres das favelas do Rio não querem entrar no Maracanã ou no Maracanãzinho para assistir as finais dos jogos de volei e futebol, nem ocupar os lugares mais caros para assistir Bolt vencer todas as provas. Não! Eles querem dignidade e respeito! Querem segurança, saneamento básico, boa alimentação, boas escolas e hospitais equipados com bom atendimento. Eles querem justiça! Aliás, Deus não está sendo glorificado nos jogos como ecoou em alguns discursos de atletas evangélicos brasileiros, como também a postura do Jogador da seleção Neimar, com a faixa na cabeça que dizia 100% Jesus. Não! Deus não é glorificado onde há injustiça, o nosso Deus é o Deus da Inclusão!


A Rio 2016 está perfeita para a elite e grandes autoridades do esporte e da política que insistem em fechar os olhos para enxergar o pobre, para os egoístas que se apressam para satisfazer seus desejos desenfreados de consumo, para os gringos que não conhecem e não vivem na pele o sofrimento do pobre latino americano. Esta é a voz do povo! Queremos Justiça!