quarta-feira, 23 de maio de 2012

Porque a Expressão de Fé da Igreja de Cristo no Brasil é Histórica-Calvinista

Por José Egberto Sátiro de Moura


Para compreendermos bem a expressão de fé da Igreja de Cristo no Brasil, precisamos entender a diferença entre Luteranismo e Calvinismo. Tanto um quanto outro fazem parte da Igreja histórica e reformada. A formação de Martinho Lutero foi feita de filosofia e teologia; Calvino recebeu uma formação humanís-tica, era de família camponesa, mas, o pai de Calvino era um tabelião que fez do filho um membro da classe profissional.

Enquanto João Calvino foi organizador por excelência do protestantismo, Martinho Lutero foi a sua voz profética. Lutero era fisicamente forte, enquanto Calvino teve de enfrentar problemas de saúde durante todo o seu período de trabalho em Genebra.

Martinho Lutero amava o lar e a família, ao passo que Calvino preferia o estudo solitário. Lutero vivia na Alemanha monárquica, e esperava o apoio dos aristocratas e príncipes; Calvino, numa Suíça republicana, interessava mais pelo desenvolvimento de uma igreja governada representativamente.

Enfim Lutero e Calvino diferiam tanto teologicamente quanto pessoalmente. Lutero enfatizava a Pregação; Calvino preocupava-se com a formulação de um sistema formal de teologia. Os dois aceitaram a autoridade da Bíblia, só que a ênfase maior de Martinho Lutero era sobre a justificação pela fé e a de Calvino, sobre a soberania de Deus. Lutero rejeitava o que a Bíblia não aprovava; Calvino rejeitava o que não pudesse ser provado na Bíblia.

Lutero aceitava a predestinação dos eleitos, mas se preocupava muito pouco com a eleição para a condenação. Calvino, por sua vez, defendia uma eleição dupla, para salvação e para condenação, baseada na vontade de Deus, e rejeitou qualquer concepção da salvação como fruto do mérito do eleito ou da presciência de Deus, como se Deus elegesse para a salvação aqueles que ele sabia de antemão que creriam.

Tanto Lutero quanto Calvino conheciam bem as posições bíblicas e filosóficas de Santo Agostinho de Hipona. Desde o Século XVI, com o movimento da Reforma os cristãos reformados aprenderam a resumir a doutrina da salvação em cinco pontos doutrinários que é histórica e calvinista, e nesse contexto Calvino foi quem teve a oportunidade de sistematiza-las. No entanto a nossa base doutrinária não foge desse padrão.

Quando fazemos um paralelo da doutrina reformada com os principais pontos doutrinários da Igreja de Cristo no Brasil, chegamos à conclusão que os nossos pioneiros estavam convictos da base de fé reformada. Esta não é diferente da que nós defendemos: vejamos os cinco pontos doutrinários calvinistas e os principais pontos da nossa expressão de fé: Primeiro, a depravação total do homem. Esta doutrina bíblica ensina que todos os homens são pecadores e estão destituídos de qualquer bondade espiritual. Todos pecaram e destituídos estão dada glória de Deus (Rm 3.9-23; Sl 14; Mc 7.21-23) Sob o pecado estão mortos espiritualmente, corrompidos e não podem realizar qualquer bem ou mesmo voltar-se para Deus.

De acordo com o quinto ponto da nossa expressão de fé, cremos na pecaminosidade universal e a culpabilidade de todos os homens desde a queda de Adão início da ira de Deus e a condenação de todos os homens, e citamos uma base bíblica que não é diferente: vejamos que a argumentação tem uma boa base bíblica. Gn 2.16-17; 3.1-24; Rm. 3. 9-23; 5.12-21; 6. 23; Hb. 9.27. Vale resaltar que é uma doutrina defendida desde Santo Agostinho até a sistematização de Calvino.

Em segundo lugar a doutrina calvinista defende a eleição incondicional, nossa Igreja defende justamente a mesma base doutrinária. Esta doutrina permeia toda Bíblia predestinação refere-se ao propósito soberano de Deus, de predestinar àqueles homens que serão salvos (Rm 8.29; 9.11-13; Ef 1.9-11). A predestinação é a base da salvação e inclui a eleição e reprovação.

Neste ponto da eleição incondicional, também a nossa doutrina não é diferente. Na nossa expressão de fé, no primeiro ponto doutrinário cremos na justificação pela fé, salvação eterna do crente, sem concurso do mérito próprio. A justificação do pecador é somente pela graça de Deus, na suficiência do sangue remidor de Jesus Cristo, com eterna segurança do cristão. Citamos Jo 10.27-29; Rm 8.1-2, além dos versos 31-39 de Romanos e Ef 2.1-9. O segundo ponto de nossa expressão de fé também faz parte dessa eleição incondicional, notemos que temos apenas mais referencias bíblicas sobre o assunto abordado nos mesmos livros do Velho e Novo Testamento.

Em terceiro lugar a expiação limitada é o terceiro ponto apresentado na doutrina calvinista. Esta doutrina afirma que Jesus Cristo morreu para salvar suas ovelhas, ou seja, os eleitos de Deus e não pelo mundo inteiro. Aqueles por quem sofreu e morreu são chamados de minhas ovelhas. (Jo 10.11,26); sua Igreja (Atos 20.28; Ef 5.25-27). Nesse ponto também não somos diferentes.

No sexto ponto doutrinário da nossa base de fé, vejam o que dizemos: Cremos na redenção da culpa, pena, domínio e presença do pecado, somente por meio da morte expiatória do Senhor Jesus Cristo, no Sangue do Unigênito Filho de Deus, nosso representante e substituto. Rm 3.24; 4.25; 5.6-10; e I Co 1.30 e 15.50-57. Observem que o que dizemos é como se estivéssemos respondendo a questão acima que é um dos pontos calvinista.

José Dantas filho, Pastor da Igreja de Cristo em Mossoró Rio Grande do Norte, ao se referir sobre os motivos que levaram a saída dos pioneiros da Assembleia de Deus, relatou no livreto Bosquejo Histórico falando sobre a história dos evangélicos em Mossoró. Ele afirma respondendo ao que pensavam os pioneiros que o crente é justificado pela fé em Cristo Jesus segundo Rm 5.1-2, sendo assim o crente está salvo para sempre, ainda que venha cair em erros, como aconteceu no passado com vários servos de Deus, e ainda acontece hoje com muitos deles, o Senhor Jesus Cristo mesmo garantiu esta certeza de salvação aos que nele cressem quando declarou as minhas ovelhas ouvem a minha vós, e eu as conheço, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão. Jo 10.27-28. Assim, o crente pode, devido as suas fraquezas espirituais, cair em pecado, desviar-se dos ensinos cristãos, mas não perderá a salvação que lhe foi outorgada gratuitamente pelo Filho de Deus mediante a fé depositada em Jesus Cristo e no seu sacrifício realizado na cruz do Calvário em favor do próprio pecador perdido em seus pecados.

Ele afirma de acordo com essa doutrina que se fosse possível perder a salvação e adquiri-la de novo mais tarde, como pregam alguns, também seria necessário haver um novo nascimento, ou mesmo terceiro ou quarto, conforme o caso, o que é totalmente impossível à luz do Novo Testamento. Esta segurança eterna da salvação do crente é ainda confirmada na palavra de Deus em textos como os de Jo 3.16 e 36; 5.25-26, além de outros versículos que tiram muitas dúvidas acerca do assunto inserido no Novo Testamento.

Nesse contexto ele relata: O que acontece com o crente desviado da sua fé, ou na sua conduta cristã, é que ele um dia, sinceramente arrependido do seu erro praticado, voltará, como aconteceu com o filho Pródigo da parábola contada por Jesus Cristo em Lucas 15. 11-32, a casa do seu pai e será maravilhosamente recebido por ele, de braços aberto, completamente perdoado com muita alegria, continuando salvo como antes de se afastar-se da vida cristã normal. Ele conclui que diante de tais ensinamentos sobre a salvação do crente genuíno, o grupo entrou em desacordo com a doutrina pentecostal aceita pela Assembleia de Deus, da salvação Transitória. 

O quinto ponto doutrinário calvinista é a perseverança dos santos, ou segurança eterna justamente como nós cremos: este ponto sugere que aqueles a quem Deus chamou para salvação, e depois, a comunhão eterna com ele (santos segundo a Bíblia) não podem cair em desgraça e perder sua salvação. Mesmo que, em suas vidas, o pecado os leve a renunciar à sua profissão de fé, (se eles são autênticos eleitos), mais cedo ou mais tarde, retornarão à comunhão com Deus. Como explicamos o que nos relata a Bíblia Sagrada, como também o testemunho acima citado pelo Pastor José Dantas Filho. No Ensino calvinista diz que se uma pessoa cai em apostasia ou não mostra mais sinais de arrependimento genuíno, pode ser prova de que nunca foi salvo, e em seguida, que não fazia parte do numero dos eleitos e é realmente assim que nos ensina varias doutrinas bíblicas principalmente em Romanos e Efésios.

Contudo o oitavo item do nosso sistema doutrinário diz que nós cremos: Na missão soberana e pessoal do Espírito Santo, no arrependimento, na regeneração e na santificação dos genuínos cristãos e citamos justamente textos que nos levam para uma proposta de santificação progressiva, e até dizemos que temos a obrigação de realizarmos boas obras porque somos salvos e não para nos salvarmos. Jo 3.3-7; 16.7-11 II Co 5. 17; Ef 1.13-14 e Tt 3.5; podemos citar vários outros textos.

O escritor Carlos Pinheiro Queiroz ao escrever As Faces de um Mito, na Pg. 85 a 93, relata a cerca das convicções doutrinárias de João Vicente de Queiroz um dos pioneiros e fundadores da igreja: diz o seguinte. Em 1932, foi um ano de fortes mudanças, foi neste ano que João Vicente de Queiroz tomou a decisão de sair da Assembleia de Deus, ainda no mês de junho. Sua leitura bíblica abria horizontes para entendimento da salvação numa ótica calvinista, embora não conhecesse praticamente nada sobre a história e postulados doutrinários de Calvino. O enfoque de João Vicente Queiroz nesse aspecto envolvia tão somente a doutrina da salvação. Para ele e para nós hoje: O crente, uma vez salvo, salvo para sempre. Os contrários a essa doutrina atribuíam na época a mudança de João Queiróz a influencia do Pastor Manoel Higino de Souza durante a visita que João Vicente de Queiroz fez ao Pr. Manoel Higino de Souza no interior do Rio Grande do Norte principalmente em Mossoró. Foi nesse cenário que ambos se conheceram, Manoel Higino de Souza a inda na Assembleia de Deus no ano de 1931.

João Vicente de Queiroz recebeu as orientações de Manoel Higino para acompanhar alguns protestantes no pequeno povoado do Moreno no município de Carnaúbas. Há informações de que Manoel Higino era um Homem muito ungido, conhecedor das Escrituras. Trocou com Queiroz suas ideais sobre a salvação eterna do crente genuíno. Havia uma espécie de casamento entre o aspecto prático de Queiroz perceber esse tema com a sistematização de Manoel Higino de Souza. Mas não é só isto. João Vicente de Queiroz como também, Eustáquio Lopes da Silva e Manoel Higino de Souza tiveram esse contato mais profundo com os protestantes presbiterianos.

Na verdade Manoel Higino de Souza quando chegou a Mossoró teve esse contato com alguns cristãos de origem presbiterianos na cidade de Mossoró. João Vicente de Queiroz também teve esse contato com as escrituras, mas também com os presbiterianos no Estado do Ceará e quando chegou ao Rio Grande do Norte, com Manoel Higino de Souza. Assim aconteceu com Eustáquio Lopes da Silva. Veja o depoimento de João Vicente de Queiroz: no mesmo ano conheci Pastor Eustáquio Lopes da Silva, homem de pele negra, filho de escrava, talvez o mais dedicado á leitura entre os obreiros da igreja na época. Manoel Higino e Eustáquio Lopes da Silva sistematizavam bem melhor do que eu o tema que Santo Agostinho chamava de justificação pela fé sem o concurso do mérito próprio.

Ele prossegue dizendo Manoel Higino de Sousa e Eustáquio Lopes da Silva eram muito queridos em todos os lugares que passavam. João Vicente de Queiroz já tinha algumas ideias sobre a salvação do crente genuíno, mas não com a mesma facilidade dos dois. Foi no encontro que teve em Mossoró que trocaram muitas ideias sobre o assunto, João Vicente de Queiroz aprofundou-se sobre a doutrina da justificação pregada por Santo Agostinho, seguida por Lutero e Calvino, é nesse contexto das Igrejas históricas que surgimos como igreja de Cristo no Brasil.

Nesse contexto a Igreja de Cristo é uma denominação de moldura pentecostal, fundada no Nordeste brasileiro, em Mossoró Rio Grande do Norte no dia 13 de dezembro do ano de 1932. O seu surgimento dá-se em função de uma dissidência na Assembleia de Deus, e por questão doutrinária é uma igreja genuinamente nordestina, historicamente caracteriza-se como a primeira igreja evangélica nativa brasileira, é uma igreja com características singulares, foi à terceira denominação pentecostal que se estabeleceu no país, a primeira denominação protestante a ser administrada por uma liderança totalmente brasileira e nordestina.

Foi também a primeira igreja produto de uma dissidência dentro do pentecostalismo nascente do Brasil. No segundo concílio da igreja de Cristo no Brasil, realizado em Mossoró-RN o Concílio que participou vários obreiros, eles tomaram uma decisão importante sobre dois temas como o batismo cristão que não deveria se repetir mesmo tendo sido batizado por aspersão á não ser quando o batizando reivindicasse por imersão. Como vimos também quando era celebrada a Ceia do Senhor esses dois sacramentos deveriam ser mantidos pela fé e pelo amor. Eles aprenderam com Goodman segundo o relato de Manoel Higino de Souza no segundo Concílio. Estudos bíblicos da Igreja Presbiteriana 16 de dezembro de 1934 Pg. 192.

A igreja de Cristo no Brasil é uma Igreja que tem uma construção doutrinária, o Doutor e Pastor também sociólogo, Alexandre Carneiro, relata em sua tese de Mestrado com o título A Trajetória da Luta Pelo Poder no Pentecostalismo o caso da Igreja de Cristo no Brasil Pg.88. Relata que a Igreja de Cristo no Brasil incorpora o ethos protestante reformado e convercionista.

Ao pesquisar sobre esse tema vejam o que encontramos de comentários sobre o principal líder e outros que construíram a nossa Igreja e doutrina. João Bosco de Sousa 2007 diz que os dois primeiros grupos pentecostais estiveram sozinhos até 1932. Até que um dos maiores expoentes da Assembleia de Deus o Pastor Manoel Higino de Sousa por divergências internas sai da Assembleia de Deus e Organiza em Mossoró no Rio Grande do Norte a Igreja de Cristo no Brasil.

Já no Site da missão sueca no Brasil comenta: no início dos anos 30, nasceu no Nordeste do Brasil a Assembleia de Cristo, formada por obreiros nacionais entre eles Manoel Higino de Souza, que passaram a crer que “uma vez salvo, salvo para sempre”, e continua um obreiro nacional leu um panfleto calvinista e começou a ensinar que aquele que aceitasse a Cristo não tem possibilidade de perder a salvação. Em outro comentário encontramos o seguinte: que na convenção de 1933, houve a exclusão dos pastores Adriano Nobre de origem presbiteriana e Manoel Higino de Souza por se envolverem com novas doutrinas.

Num outro Site encontramos esse comentário: talvez o mais importante cisma tenha ocorrido em 1932, os Pastores Manoel Higino de Souza, e João Vicente de Queiroz, entre outros, saíram em defesa da salvação incondicional, proposta pelo calvinismo, divergindo da Maioria dos missionários suecos. A negativa do Missionário Nils Kastberg, quanto ao pedido da realização de uma convenção para tratar do tema, resultou na retirada dos adeptos do calvinismo para fundar a Assembleia de Cristo mais tarde, Igreja de Cristo no Brasil muito presente no Ceará.

É nesse contexto que nasce a Igreja de Cristo no Brasil, uma igreja em que Seu sistema doutrinário é Bíblico Reformado e Calvinista.

Este texto é parte do livro; Biografia da Igreja de Cristo no Brasil no contexto da evangelização brasileira escrito pelo pastor José Egberto Sátiro de Moura.  






segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uma Igreja Genuinamente Nordestina

Por José Egberto Sátiro de Moura


A Igreja de Cristo no Brasil nasceu após o surgimento da ultima expressão do pentecostalismo no país. No final da primeira década do século XX, no início da segunda década nasceram as principais e maiores denomina-ções do pentecostalismo clássico; a Congregação Cristã e a Igreja Assembleia de Deus, ambas cons-tituíam movimentos dissidentes de duas denominações históricas: a Igreja Presbiteriana do Braz (São Paulo) e a Igreja Batista em Belém do Pará, respectivamente. Já em 1932, o pentecostalismo estava espalhado em 15 Estados da federação brasileira: Rio de Janei-ro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Maranhão, Pará e Amazonas. 

 A história da Igreja de Cristo no Brasil começa com um dos principais lideres intermediário da Assembleia de Deus. O Pastor Manoel Higino de Souza (1900 a 1975) nasceu de uma família católica, na cidade de Angicos Rio Grande do Norte. Aos dois anos de idade mudou-se com os pais e fixou residência em Bragança, no Estado do Pará.

Ainda garoto, sentiu interesse de conhecer as Sagradas Escrituras e seu primeiro contato com a Bíblia foi através de uma madrinha, também residente no Pará. Manoel Higino de Souza era um artista: cantor, compositor, e instru-mentista, tocava violão, acordeom, bandolim, cavaquinho, e citara. O primeiro contato com o protestantismo foi em 1918, através de um amigo que se convertera na capital. O amigo o encontrou quando ele se apresentava numa festa, e disse que desejava falar-lhe em particular. Revelou-lhe que era crente: assistira a um culto e entregara-se a Cristo conforme relata a filha de Manoel Higino de Souza a Alexandre Carneiro de Sousa numa entrevista para a tese de Mestrado. Nesse contexto converteu-se ao protestantismo e transformou-se num eloquente pregador ganhador de almas com boa capacidade de convencer as pessoas a aderirem à fé evangélica. A partir da conversão, começou logo a trabalhar como pregador do evangelho. Viajava incansa-velmente por diversas cidades, em toda parte muitas pessoas aderiam ao protestantismo por seu intermédio. Seu ministério foi tão destacado que com apenas 17 anos foi ordenado ministro pela Igreja Assembleia de Deus. Pastoreou em Nova Cruz 1921, em Natal de março de 1922 ao final de 1923, retornando a Belém do Pará pastoreou em Manaus no Amazonas. Dez anos após sua trajetória foi-lhe confiada a importante missão de fundar uma Igreja em Recife, tarefa que rejeitou, dizendo ter recebido uma revelação especial para evangelizar a cidade de Mossoró Rio Grande do Norte. O retorno de Belém do Pará para o Estado onde nascera ocorreu em 1927, no mesmo ano em que Lampião invadiu a cidade de Mossoró, desamparado de tudo, pois os missionários nada lhe deram, a não serem livros para vender. 

 A viagem fora de navio, de Belém a Fortaleza e de Fortaleza a Areia Branca-RN. Chegaram a Mossoró de trem. Na estação, um companheiro de viagem ofereceu-lhe um automóvel para levar a família para a casa de um tio a quem conhecia apenas de nome. Segundo o jornal Boa Semente, de Nº 109, de junho de 1930, no percurso para o bairro, falou do evangelho para o chofer, um senhor chamado Macário Nogueira que se converteu ali mesmo. Em Mossoró implantou a Assembleia de Deus. No entanto a parti de 1930 a denominação enfrentou uma crise doutrinária entre os missionários estrangeiros e os pastores brasileiros culminando com a reunião de 1930 da qual Manoel Higino de Souza foi o Secretário.

 Segundo o depoimento de João Vicente de Queiroz, no encontro com Manoel Higino de Souza em Mossoró, em 1930, percebeu que havia uma tensão doutrinária na região, por divergência de ideias entre este e os missionários, o que já vinha se arrastando desde algum tempo. Em 16 de maio de 1932, na cidade de Itaú-RN, o grupo solidificou sua posição numa reunião liderada por Manoel Higino de Souza, que contou com as presenças de Gumercindo Medeiros, Eustáquio Lopes da Silva, Tomaz Benvindo, Francisco Juscelino do Nascimento, Candido Barreto, Domingos Barreto e João Morais.

Nesse contexto Manoel Higino de Souza autor de 40 hinos na Harpa Cristã do ano de 1932, sendo um de Elvira Seabra de Souza, além de 13 Hinos do Saltério dos quais sete destes já estão na Harpa Cristã de 1932, ele se destacava tanto na Assembleia de Deus como na Igreja de Cristo no Brasil, por ser missionário e compositor tendo vários hinos publicado no hinário oficial da denominação. Nesse contexto em 1932 ocorreu um incidente entre Manoel Higino de Souza e Nils Kastberg redator do Mensageiro da Paz e responsável pela publicação do hinário da igreja. Na publicação do hinário em sua gestão, Nils publicou um hino do Pr. Manoel Higino de nº 77 com a letra alterada, trazendo sérias implicações doutrinárias o hino original dizia:

“lamento os que prosseguem, para a triste perdição, desprezando o convite, da grande salvação”. 

Foi publicado com a seguinte alteração:

 “Choro pelos que se desviam, para a triste perdição, desprezando o convite da grande salvação”.

 Como vemos a letra original refere-se ao não protestante perdido por rejeitar o convite da salvação. A letra alterada refere-se à perdição do protes-tante que se desvia do caminho de Deus. Manoel Higino não concordando com a alteração solicitou por carta a correção da letra do referido hino. O missio-nário respondeu que não o considerava em condições de corrigir qualquer trabalho seu. Em nova carta o Pr. responde: “Se o irmão não pudesse corrigir o hino que não publicasse”. A resposta do Missionário foi Drástica: “Não vou retirar somente este hino, mas todos de sua autoria, que tenham sido publicados na Harpa”. Este foi o Estopim que faltava para levar Manoel Higino de Souza à dissidência. Sua liderança no processo de criação da Igreja de Cristo no Brasil certamente está relacionada com suas habilidades como orador e músico, que lhe davam capacidade de sozinho, formar grupos de simpatizantes ao seu redor.

O segundo motivo foi à intervenção na Igreja de Mossoró realizada por três pastores: Cicero Araújo Lima, Francisco Gonzaga e Luiz Chaves, sob a acusação de que o pastor Manoel Higino de Souza estivesse pregando doutri-nas Falsas. Os interventores chegaram de surpresa, em dezembro de 1932, num culto que estava sendo realizado sob a direção do Pr. Gumercindo de Medeiros e assumiram a liderança dos trabalhos. Num desses momentos o Pr. Francisco Gonzaga perguntou quem estava de acordo com a doutrina pregada por Manequim, os que se identificaram receberam a ordem para se retirar. Com isto, o Pr. Manoel Higino de Souza assumiu a liderança do grupo dissidente.

A cisão aconteceu por motivos exclusivamente doutrinários e foi apressada devido aos fatos acima citados. Contudo em 13 de dezembro de 1932. Em Mossoró Rio Grande do Norte, oportunidade em que o Pr. Manoel Higino de Sousa, acompanhado de três evangelistas, Gumercindo Medeiros, Eustáquio Lopes da Silva e João Vicente de Queiroz e cinco auxiliares de trabalho Tomaz Benvindo, Francisco Targino do Nascimento, Candido Barreto, José Sotero de Morais e Jonas Galvão de Figueiredo, oficializaram sua saída da Assembleia de Deus em carta dirigida ao Missionário e Pastor Nils Kastberg, acompanhada das credenciais de ministros se desligando completa-mente. Vale ressaltar que João Vicente de Queiroz, na época evangelista já havia se desligado da Assembleia de Deus em Morada Nova Ceará entregando sua credencial no dia 11- 06 de 1932, ao Pastor Juvenal Roque de Andrade. 

O sistema administrativo implantado na nova Igreja colocava um no poder, o missionário os outros demais sob sua autoridade. Manoel Higino de Souza era um homem amável, que gostava de abraçar a todos. Tratava-se porem de uma autoridade paternalista e sob sua gestão, a nova Igreja espalhou-se pelo Oeste do Estado e já em 1933 chegou à capital. 

 A Igreja de Cristo no Brasil é uma denominação de moldura pentecostal, fundada no Nordeste brasileiro, em Mossoró Rio Grande do Norte no ano de 1932. O seu surgimento dá-se em função de uma dissidência na Assembleia de Deus, a qual na década de 30 passava por graves crises internas em consequência de lutas pelo exercício hegemônico do poder eclesiástico. É uma igreja com proposta “Tupiniquim”, genuinamente nordestina, historicamente, caracteriza-se como a primeira igreja evangélica nativa brasileira, caminhou boa parte do tempo à margem da história oficial dos evangélicos no Brasil. Nesse contexto a Igreja de Cristo no Brasil é uma igreja com características singulares, foi à terceira denominação pentecostal que se estabeleceu no país, a primeira denominação protestante a ser administrada por uma liderança totalmente brasileira e nordestina. Foi também a primeira igreja produto de uma dissidência dentro do pentecostalismo nascente do Brasil, nasce sob o signo de uma quadrupla discriminação: era protestante, pentecostal, nordestina e dissidente. A Igreja de Cristo no Brasil viveu no anonimato por muito tempo. Dois foram os motivos do anonimato. O primeiro foi o de ordem documental. Historicamente a memória desta igreja é essencialmente de natureza oral. Nunca houve anteriormente nenhum esforço ou qualquer interesse dentro da própria igreja ou fora dela pelo registro e publicação de sua história. 

 Na história escrita do protestantismo brasileiro essa igreja nunca existiu. A ausência de iniciativa interna está intimamente condicionada às origens sociais da Igreja de Cristo: desde seu surgimento até à década de setenta, a maior parte dos membros e seus principais líderes eram egressos das categorias humildes da sociedade, cuja educação era mínima. 

 O Segundo motivo é o de caráter regionalista. A história do protestantismo no Brasil ainda é, na sua maior parte, a história da Igreja do Sul e Sudeste. Isto se contextualiza tipicamente na problemática das diferenças regionais do Brasil. Evidentemente a Igreja de Cristo no Brasil, é uma igreja pobre que surge no Nordeste um dos setores mais pobres da região do país teve que lhe dar com a desvantagem de ocupar a periferia do centro onde a história religiosa está em evidência. Nesse contexto todas as igrejas históricas estabeleceram no sua sede no Sul e Sudeste do País. Ela nasce como denominação e se desenvolve no interior do Estado do Rio Grande do Norte: dai parte para outros Estados do Nordeste e do Sudeste, amparada num modelo marcantemente rural, que vai gradativamente mudando a partir dos anos oitenta. Em organizações com este perfil, a experiência está acima da necessidade de documentação e isto é o reflexo do padrão cultural do grupo e das relações informais que se estabelecem no espaço social onde está inserido. 

O Doutor em Sociologia Alexandre Carneiro de Souza, também pastor da igreja, relata em sua tese de Mestrado que o rompimento de 1932, fez nascer uma igreja Nordestina com liderança própria da região, com o desafio de realizar um projeto de igreja tendo como base a experiência adquirida no curto espaço de tempo de convivência na Assembleia de Deus. A tarefa não era fácil excetuando-se o Pastor Manoel Higino de Sousa, os demais funda-dores da igreja eram obreiros fiéis, mas que haviam aderido recente-mente à nova organização. Todos eles haviam crido a partir do ano de 1927, ano em que Manoel Higino de Souza havia chegado a Mossoró-RN. 

Nessa conjuntura a história da Igreja de Cristo no Brasil, de 1932 a 1987 é necessariamente a história de três destacados pastores, patriarcas de liderança carismática e centralizadora: Manoel Higino de Souza-Missionário de 1932 a 1947. Eustáquio Lopes da Silva-Missionário de 1947 a 1961 e João Vicente de Queiroz-Presidente de 1961 a 1987. A saída da Assembleia de Deus confinou a igreja nascente ao isolamento, tanto em nível geográfico, como em nível de recursos, técnicas e intercâmbios culturais com os demais Estados Brasileiros e com outros países que pudessem apoiar na época a igreja dissidente.


Este texto é parte do livro; Biografia da Igreja de Cristo no Brasil no contexto da evangelização brasileira escrito pelo pastor José Egberto Sátiro de Moura.  




terça-feira, 8 de maio de 2012

A Teologia do Contentamento

Por Marcos Aurélio dos Santos 


Vivemos dias difíceis. Enfrentamos séria crise no meio evangélico quanto ao contentamento no que se refere às coisas temporais.
Bens, saúde, estabilidade financeira e outras coisas mais, limitadas a esfera temporal e terrena. A valorização das posses atropela o bom senso e o contentar-se com o que temos sem reclamar.
Por muitas vezes nossas orações refletem esta realidade. Petições em que o individuo motivado pela relação do ter (Relação que ver Deus apenas como fonte de consumo) pede para si, raramente para o próximo onde geralmente os pedidos estão relacionado a bênçãos materiais. É uma oração que não enxerga o por vir, o celestial, o Reino, mas apenas o aqui e agora.

Esta crise vem se alastrando de tal forma, que não é somente encontrada no neo-pentecostalismo trazido pelas igrejas americanas da prosperidade, mas já está bastante presente no meio pentecostal e em outros seguimentos.

Não queremos dizer com isto que o cristão não possa possuir bens.  Trabalhar honestamente, administrar com equilíbrio as finanças e ser negociador honesto, certamente resultará em benção e prosperidade financeira. Mas fazendo tudo com total dependência do Espírito, refletindo sobre as palavras de Jesus que diz que nem só de pão viveremos, mas do alimento com nutrição espiritual (Mt.4.4) vigiando, colocando a busca do Reino de Deus como prioridade, não deixando que os bens materiais seja o tesouro do nosso coração (Mt.6.21;33).

O apostolo Paulo ao escrever sua carta aos irmãos da igreja de Filipos, quando se encontrava em algemas, Possivelmente em Roma, expressa sua gratidão a Deus dizendo que as experiências vividas por ele após sua conversão, ensinaram-lhe a viver contente em toda e qualquer situação. Expondo seu coração aos irmãos daquela igreja, Paulo diz que já teve experiências tanto de fartura como de fome, assim como de abundancia, como de escassez (Filipenses. 4.11-12).

A busca do contentamento exercida por Paulo tinha suas raízes fundamentadas naquele que o fortalecia. Ele diz: Tudo posso naquele que me fortalece. (Filipenses. 4.13).  Essa frase citada por Paulo, revela que todo o suprimento material de que ele precisava, vinha de Deus. Para ele, situações como fome, doença naufrágio e dentre outras, eram superadas pelo poder fortalecedor do Senhor Jesus. Paulo entendia que em situações de crise, deveria estar totalmente dependente do Deus que supria suas forças nos momentos de fraqueza. 

Em nossa busca desenfreada pelo material, não há lugar para o contentamento e passamos a confiar em nossas própias forças. Somos inevitavelmente influenciados pelo espírito capitalista de nossa época. Somos consumistas compulsivos, indivíduos sem limites, Tudo para nós parece necessário, tudo é atrativo. Nossas relações com o próximo por muitas vezes é baseada no que ele possui, e não no que ele é. Valorizamos bens materiais, desprezamos pessoas, rejeitamos o necessitado, vidas que Cristo comprou com seu sangue precioso.

Há extrema urgência em retornarmos às escrituras e refletir sobre o ensinamento do contentamento ensinado por Jesus e seus apóstolos.

Em sua primeira carta escrita ao seu filho na fé Timóteo, Paulo mais uma vez expressa seu pensamento a cerca do contentamento (gr.autrarkeia= suficiência). Paulo agora aconselha Timóteo a trilhar pelo mesmo caminho. Ele diz que é de fundamental importância, como também de grande valor, a piedade acompanhada de contentamento (1 Tm.6.6), e que a relação pelo qual devemos buscá-la, dar-se pelo fato de que tudo isso é temporal, pois nada temos trazido para o mundo, nem ciosa alguma podemos levar dele (1Tm.6.8).

Paulo não está incentivando Timóteo a ter uma vida de itinerante, desprovido de todo tipo de bens materiais, mas alerta seu filho na fé, a não cair na armadilha do amor à riqueza, que é perigoso. Sua preocupação não era com a qualidade de vida que os crentes daquela comunidade deveriam ter, mas levá-los a buscar o contentamento para que a fé em Cristo fosse preservada (1Tm.6.9-10).

Não muito distante, muitos de nós cristãos precisamos refletir sobre as palavras de Jesus, quando disse que as raposas têm covis, as aves do céu, ninhos, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mt.9.58).

É engano pensar que ser discípulo é sinônimo de vida confortável com fartura de bens e sem possibilidade de sofrimento. Os interessados em segui-lo numa perspectiva de receber algo em troca, sofrearão grande frustração, pois Cristo chama os que estão dispostos a renunciar tudo quanto tem (bens materiais) e até mesmo a própria vida em prol do reino de Deus, e isso requer total desprendimento de coisas materiais. (Ver Lc 14.33; Mc 8.35).

O ensinamento de Jesus no sermão do monte sobre o reino de Deus, aponta para uma esfera espiritual, totalmente fora de uma visão terrena e humana (Mt. Cap.5-7).

Que possamos refletir também sobre as palavras de Jesus quando ele disse que não devemos estar ansiosos quanto a nossa vida quanto ao que haveremos de comer e vestir (Mt.6.25-34).

Pergunto, como disse o próprio Jesus: Não somos mais valiosos do que os pássaros do céu? Não somos vais importantes do que os lírios do campo? O valor do corpo está em sua ressurreição no grande dia da vinda do Senhor Jesus. O da vida está na esperança, no que está por vir.

O contentamento é encontrado quando se percebe que a prioridade da busca é o Reino de Deus e a sua justiça, e o material é suprido de forma natural (Mt.6.33). Vivemos o prenuncio desse Reino. Devemos buscar intensamente a sua justiça. O contentamento não deve está naquilo que Deus nos dá pela sua maravilhosa graça, mas pelo que ele é, e nas suas promessas que haverão de se cumprir na sua vinda.

Somos desafiados a trilhar no caminho do contentamento. Longe de nós deve estar a queixa, a ansiedade, o descontentamento, pois Cristo é a nossa provisão.

domingo, 22 de abril de 2012

A Teologia da Prosperidade e a Lógica de Mercado

Por Marcos Aurélio dos Santos


Têm-se observado no contexto da prática de espiritualidade dos adeptos da teologia da prosperidade, formas bastante semelhante nas quais são encontradas em grandes empresas do cenário econômico brasileiro. Estratégias de oferta de novos produtos, líderes arrojados, Incentivo ao consumo, métodos para atrair a clientela e dentre outras formas mercadológicas, são praticadas neste seguimento religioso.

A teologia da prosperidade teve seu inicio em 1960 nos EUA, tendo como seu principal divulgador Kennetth Hagin, chagando ao Brasil na década de 70, sendo seu principal veículo de divulgação algumas igrejas pentecostais e movimentos interdenominacionais. Hoje tem como principais propagadores R.R. Soares, Edir Macedo e o também conhecido “apóstolo” Valdomiro. Estes são do movimento chamado neopentecostalismo que se destacam na mídia por meio da televisão, internet, rádio e outros meios de comunicação.
Neste cenário, percebe-se a estreita relação da teologia da prosperidade com as práticas da economia capitalista e neoliberalismo, ambos vivenciados na economia brasileira. Vejamos o que diz o Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro em seu artigo, O que um cristão precisa saber sobre a teologia da prosperidade:

A Teologia da Prosperidade está, portanto, intimamente relacionada com o sistema econômico neoliberal. Às práticas religiosas de parcela considerável da população são acopladas (ou incentivadas) práticas socioeconômicas, em consonância com a lógica do neoliberalismo. Tal aglutinação possui embasamento religioso que, indiretamente, contribui para a associação entre consumo e salvação, e entre capitalismo e Reino de Deus.

O Evangelho da prosperidade oferece a seus seguidores  o Reino de Deus de forma camuflada onde o alvo principal é incentivar seus adeptos numa busca de melhoria de vida no aspecto capitalista onde segundo eles, o indivíduo pela fé, passa a ter uma melhor condição financeira. Os valores do Reino ensinados por Jesus em seu sermão da montanha (Mt.cap.5-7), ficam em segundo plano, enfatizando-se portanto o Reino do aqui e agora onde a perspectiva é o acúmulo de bens materiais e prosperidade financeira.
O incentivo dos líderes em levar seus adeptos a valorizar bens materiais resulta em uma busca intensa de consumo. O ajuntamento de pessoas não tem finalidade de adoração a Deus mais um momento de procurar nas “prateleiras da religião”, algo que possa satisfazer seus desejos de consumo. Não há espaço para momentos devocionais, confissões, confraternização, comunhão e outras práticas vividas pelos Cristãos da Bíblia e pelas igrejas Cristãs Reformadas.
Nessa relação, capitalismo e Reino de Deus, surgem algumas formas bem semelhantes à lógica de mercado, e que são encontradas no cenário econômico brasileiro.
Vejamos:

CONSUMISMO. Na busca do sagrado, os adeptos da prosperidade são motivados por seus lideres a ter uma relação com Deus para satisfazer seus desejos de consumo. As bençãos concedidas pela graça de Deus, segundo a sua vontade, são encaradas como produtos de consumo. Como acontece na relação cliente e comerciante, é preciso pagar para obter o produto. No caso, o dízimo e a oferta são os meios de comprar a benção, se por ventura o irmão não tiver recursos financeiros, ou não for fiel em suas contribuições, não pode levar o produto.
Os produtos chamados numa linguagem do comercio de “produtos de ponta de gôndola” (os mais focados), sempre estão relacionados a bens materiais e cura divina, o que é bastante atrativo para as massas, num cenário onde a igreja brasileira está profundamente influenciada pelo capitalismo moderno e práticas místicas de religiões afros e indígenas.
Esta perigosa relação onde Deus é visto como fonte de consumo tem levado multidões a uma cegueira espiritual quanto ao verdadeiro sentido do que é Reino de Deus. Valores como perdão, misericórdia, mansidão e outras virtudes cristãs, são substituídos pelo desejo de satisfazer o que é chamado pelos consumistas impulsivos de sonho de consumo.

Tal relação distancia-se do propósito de Deus quanto a sua relação com seus filhos, onde seu desejo é construir um relacionamento amoroso com aqueles que humildemente o buscam. Rejeita-se a paternidade de Deus e seu gracioso amor para têlo apenas como objeto de consumo. Misericordia!  

 INOVAÇÕES DOS PRODUTOS. Outra semelhança do movimento da teologia da prosperidade com a metodologia de mercado é a inovação dos produtos oferecidos a clientela. O alvo é o entretenimento, ou seja, sempre oferecer ao público novas formas de liturgia, oferta de novos produtos que por sua vez tem como objetivo, satisfazer as necessidades dos clientes. Para indivíduos que tiveram problemas e frustrações na vida conjugal, é oferecido um ritual em um culto especifico para casais onde o pretendente pode segundo eles, libertar-se do demônio que está impedindo que a benção seja recebida, prática que sempre passa por inovações.

Sempre se cria novos produtos para entretenimento. Como na indústria que inova seus produtos com novas embalagens, sabores e complementos como brindes, por exemplo, a teologia da prosperidade oferece também inovações em seus produtos.

CONCORRÊNCIA DE MERCADO. Muitas são as estratégias das grandes empresas para atrair clientes da concorrência. Investem em propaganda, oferecem promoções, conforto, facilidade para compra do produto disponibilizando linha de crédito e por ai vai. O resultado é um circulo de clientes a procura da melhor oferta. Neste cenário, os clientes mudam de uma loja para outra.
O mesmo acontece nas igrejas das multidões. A concorrência é acirrada entre os mais destacados, investem alto para atrair membros de outras igrejas, principalmente em propaganda, oferecem cultos em megatemplos para recebem os clientes, e a garantia da benção recebida. Usam a mesma estratégia dos Hipermercados quando constroem ou alugam templos vizinhos ou de frente da denominação concorrentes caracterizando assim, a prática do proselitismo.

COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS DE NESCESSIDADES. Livros, Vídeos, Camisetas, Bíblias, CDs, Cura do Corpo, Emprego, Felicidade no casamento pode não parecer, mais tudo está no mesmo pacote, apenas em prateleiras diferentes, tudo é produto de consumo aonde as pessoas vão colocando no carrinho aquilo que lhe satisfaz ou por necessidade. Oferecem de maneira estratégica, produtos que atende aos anseios das multidões que superlotam suas igrejas em busca do produto abençoado.
A teologia da prosperidade tem sucesso garantido em seus empreendimentos simplesmente porque oferecerem para o público de uma maneira geral, produtos que vai de encontro com seus própios desejos, afinal, em um pais capitalista, quem não quer ser curado de uma enfermidade no corpo, e ter uma vida saudável, ou prosperar financeiramente e outras vantagens materiais? 

A teologia da prosperidade oferece a seus adeptos uma propaganda enganosa. A falsa sensação de uma felicidade fundamentada em bens materiais contradiz o ensinamento de Jesus a cerca das bem aventuranças (Ver. Mt. Cap 5), esta “fábula evangélica” tem levado muitos evangélicos a perder de vista os verdadeiros valores do Reino. Como uma grande nuvem negra que esconde a beleza do primeiro céu, a teologia da prosperidade de maneira sorrateira tenta esconder a Bela e sublime mensagem do evangelho de Jesus Cristo. Que o Senhor nos Ajude.